Por Felippe Llerena, presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) e especialista da indústria da música*
A economia global do streaming alcançou um nível de maturidade que reduz progressivamente o espaço para decisões guiadas apenas pela intuição. Dados divulgados pela Spotify indicam que a plataforma distribuiu mais de US$ 11 bilhões à indústria musical no último ano, o maior volume anual já registrado. Mais do que um marco financeiro, esse número evidencia a consolidação do streaming como principal motor de receita da música gravada no cenário global e revela a dimensão econômica de um modelo que passou, em pouco mais de uma década, de experimento tecnológico a infraestrutura central da indústria.
O volume de recursos também ajuda a compreender como essa nova economia está distribuída. Informações publicadas no Spotify Newsroom mostram que aproximadamente metade dos royalties pagos pela plataforma foi destinada a artistas e selos independentes. Esse dado altera o eixo do debate sobre internacionalização. Se os independentes já capturam uma parcela relevante da receita global, a principal diferença passa a depender menos do acesso às plataformas e mais da capacidade de estruturar estratégias consistentes de circulação, posicionamento e presença internacional.
O mercado brasileiro, nesse contexto, atravessa um ciclo de expansão relevante. De acordo com a Pro-Música Brasil, o setor fonográfico superou R$ 3 bilhões em faturamento em 2024, registrando crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior. O país ocupa atualmente a nona posição entre os maiores mercados de música gravada do mundo, segundo a IFPI, um desempenho que combina escala doméstica significativa com aumento gradual da projeção internacional de artistas brasileiros.
Um elemento adicional ajuda a compreender a singularidade do mercado brasileiro. Diferentemente do que ocorre em muitos países, onde repertórios internacionais dominam o consumo, o Brasil apresenta uma predominância consistente de música doméstica nas plataformas digitais. Dados da Pro-Música Brasil indicam que 93,5% das 200 músicas mais ouvidas no país são de artistas brasileiros, um nível de predominância do repertório local raro entre grandes mercados musicais. O dado evidencia uma relação cultural particularmente forte entre o público e a produção nacional e ajuda a explicar por que o Brasil mantém uma indústria musical doméstica robusta, sustentada por uma audiência que demonstra preferência clara por artistas do próprio país.
A estrutura da receita confirma a profundidade da transformação digital no país. Mais de 85% do faturamento da música gravada no Brasil já vem do streaming, o que indica um mercado fortemente integrado à lógica global de distribuição e consumo digital. Relatórios da IFPI também mostram que a América Latina se tornou a região com maior taxa de crescimento em receita musical no mundo, superando 20% ao ano. Como principal mercado da região, o Brasil ocupa posição estratégica nesse processo, funcionando simultaneamente como polo de produção, consumo e exportação cultural.
Assim, a internacionalização da música independente brasileira tende a surgir menos como gesto simbólico e mais como etapa natural de maturação de um setor que já opera majoritariamente em ambiente digital. O universo global de streaming ultrapassa 750 milhões de assinantes pagantes, formando uma base de consumo recorrente e monetizado que sustenta o crescimento da indústria. A existência dessa base cria um ambiente de maior previsibilidade econômica, mas apenas para quem desenvolve capacidade de interpretar dados, planejar lançamentos e construir audiência de forma estruturada.
Também é necessário reconhecer que o crescimento agregado do streaming não se traduz automaticamente em renda estável para todos os artistas. A distribuição de royalties continua concentrada, enquanto a competição por atenção se intensifica à medida que o volume de lançamentos aumenta. Esse cenário, no entanto, não enfraquece a lógica da expansão internacional. Ao contrário, reforça a necessidade de estratégias mais sofisticadas, capazes de ampliar mercados e diversificar fontes de receita.
Expandir fronteiras envolve, por exemplo, domínio de estruturas internacionais de publishing, capazes de garantir a coleta eficiente de direitos autorais em múltiplos territórios. A construção de acordos de distribuição e parcerias locais também se torna relevante para inserir artistas em ecossistemas culturais específicos e ampliar sua capacidade de circulação. O uso sistemático de dados de streaming passa a orientar decisões estratégicas, permitindo identificar territórios onde a audiência cresce, planejar turnês, direcionar campanhas e fortalecer conexões com públicos emergentes.
A gestão de catálogo assume papel igualmente central nesse ambiente. No modelo digital, as obras permanecem disponíveis indefinidamente e podem ganhar novas camadas de audiência ao longo do tempo, especialmente quando associadas a estratégias consistentes de lançamento, curadoria e reposicionamento de repertório. Ao mesmo tempo, a construção de público internacional raramente ocorre de forma homogênea. Em muitos casos, o crescimento começa por mercados com proximidade cultural ou linguística, como países latino-americanos, comunidades latinas nos Estados Unidos ou circuitos europeus ligados à música global.
A produção musical brasileira reúne características que favorecem esse movimento. Diversidade estética, tradição autoral, alta penetração digital e inserção regional em uma das áreas de maior crescimento da indústria formam um conjunto de ativos culturais e econômicos relativamente raro. Poucos mercados combinam, ao mesmo tempo, uma base doméstica robusta de consumo com potencial de exportação cultural tão amplo.
Portanto, a internacionalização deixa de ser uma ambição difusa e passa a representar uma escolha estratégica. Ampliar a presença em outros territórios pode aumentar receitas, reduzir a dependência do mercado interno e posicionar melhor artistas e selos independentes dentro da dinâmica global da música digital. Em uma economia que já movimenta cifras bilionárias e mantém crescimento consistente, limitar a atuação ao espaço doméstico pode significar abrir mão de uma parcela relevante das oportunidades disponíveis. A discussão central passa a girar menos em torno da decisão de olhar para fora e mais sobre como estruturar esse movimento com planejamento, cooperação e visão de longo prazo.
Felippe Llerena é empreendedor e especialista da indústria da música, com trajetória ligada ao mercado independente. Atualmente, preside a ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), que reúne selos e produtores fonográficos e atua no fortalecimento de um ecossistema mais diverso e sustentável. Trabalha no desenvolvimento de modelos viáveis para a produção fonográfica, na inserção de catálogos brasileiros no ambiente digital e no debate sobre remuneração no streaming, regulação e equilíbrio econômico do setor.
