Depois de fazer da autoficção um instrumento para discutir gordofobia, desejo e pertencimento em Porca Gorda, um dos livros brasileiros de maior repercussão de 2025, a escritora, jornalista e curadora mineira Jéssica Balbino inaugura um novo momento de sua trajetória literária.
A autora estreia na ficção fantástica com O que se move não precisa ser nomeado, publicado pela Mapa Lab em parceria com a Janela Livraria. A obra integra Papéis Selvagens, coleção organizada pela escritora e artista Janaina Tokitaka que reúne cinco narrativas inéditas sobre mulheres, animais e as fronteiras entre o humano e o selvagem.
Mais do que mudar de gênero literário, Jéssica Balbino amplia uma investigação que atravessa toda a sua obra: como escrever violências que o realismo já não consegue explicar.
Em O que se move não precisa ser nomeado, a autora constrói um horror em que a monstruosidade deixa de pertencer aos corpos historicamente marginalizados para revelar a violência estrutural dirigida contra eles. Água, lama, animais e transformação corporal tornam-se elementos de uma narrativa em que mulheres carregam memórias ancestrais e interrompem ciclos de violência masculina.
“Depois de Porca Gorda, percebi que existiam experiências que já não cabiam na linguagem da realidade. A violência contra mulheres e pessoas gordas é tão cotidiana que muitas vezes se torna invisível. O horror me permitiu devolver estranhamento ao que nunca deveria ter sido considerado normal”, afirma a autora.
A escolha dialoga com uma geração de escritoras latino-americanas que recolocou o horror no centro da literatura contemporânea. Nomes como a argentina Mariana Enriquez, a equatoriana María Fernanda Ampuero e a cubano-americana Carmen Maria Machado transformaram o fantástico em ferramenta para narrar feminicídio, violência doméstica, desigualdade social e traumas herdados.
É nesse território que a escritora insere sua estreia ficcional. Se Enriquez faz das cidades organismos vivos e Ampuero utiliza o grotesco para revelar a brutalidade das relações de gênero, Balbino parte da experiência dos corpos gordos e femininos para construir um horror profundamente brasileiro, marcado pelas águas, pela oralidade, pela memória coletiva e por uma criatura que transforma um dos insultos mais antigos dirigidos às mulheres gordas em potência narrativa.
A porca, historicamente utilizada como metáfora de degradação feminina, deixa de representar vergonha para tornar-se uma entidade que reorganiza o mundo.
“A mulher gorda sempre foi tratada como monstruosa. Resolvi inverter essa lógica. O monstro da minha história não é a mulher. O monstruoso é o sistema que transforma determinados corpos em alvo permanente de violência”, diz.
Uma coleção que apresenta novas vozes do fantástico brasileiro
A estreia acontece dentro de um projeto editorial que aposta justamente na renovação da literatura fantástica escrita por mulheres.
Organizada por Janaina Tokitaka, Papéis Selvagens reúne cinco plaquetes que exploram o encontro entre mulheres e animais. São narrativas em que medo, desejo, luto, memória, raiva e sobrevivência atravessam o cotidiano, enquanto os bichos revelam violências invisíveis, transformam corpos e desfazem as fronteiras entre natureza e humanidade.
Além de Balbino, participam da coleção Janaina Tokitaka (Animais domésticos), Isabela Noronha (Martas), Tainá Muhringer Tokitaka (O reconhecimento dos insetos necrófagos) e Silvana Tavano (Zumbido).
Da autoficção ao horror
Embora represente sua estreia na ficção fantástica, O que se move não precisa ser nomeado estabelece um diálogo direto com Porca Gorda. Nos dois livros, o corpo permanece no centro da narrativa.
Se na autoficção Balbino investiga a formação subjetiva de uma mulher gorda diante da violência cotidiana, na nova obra essa violência assume uma dimensão fantástica, aproximando-se do horror e do realismo mágico latino-americano para discutir memória, trauma e sobrevivência.
Para a autora, trata-se menos de uma mudança de tema do que de linguagem. “Percebi que algumas violências só podem ser narradas quando abandonamos a obrigação de sermos realistas. O horror permite escrever aquilo que o corpo sabe antes que a linguagem consiga explicar.”
Circulação nacional
O lançamento da plaquete marca também um momento de intensa circulação da autora.Durante a Flip, em Paraty, Jéssica Balbino participa da mesa “Para não ser esquecido: Memória, encarceramento e a palavra como resistência das periferias brasileiras”, ao lado de Jandira Feghali, Cléo Santos, Hamilton Borges, Julinho Barroso e Marcus Galinã, com mediação de Elaine Barbosa, em um debate sobre memória, criminalização e a literatura como ferramenta de resistência nas periferias brasileiras. Também integra o Café Literário – Podcasts Literários, no Sesc Santa Rita, ao lado da jornalista e criadora de conteúdo Tatiany Leite, com mediação de Diogo Brunner, discutindo como podcasts e plataformas digitais vêm transformando a circulação da literatura e aproximando autores e leitores. A programação segue em Registro (SP), onde participa da mesa “Nóis por Nóis – Literatura Marginal e Resistência nas Quebradas”, dividindo o palco com Ferréz, em uma realização da Flipei em parceria com o Sesc. Na sequência, a autora integra o Festival Ebulição Marginal, em Curitiba (PR), um dos principais encontros dedicados à literatura periférica no Brasil, novamente ao lado de Ferréz e desta vez também de Ryane Leão. Em agosto, retorna a São Paulo como uma das curadoras da Flipei – Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, realizada entre os dias 5 e 9 de agosto, ministra a oficina “Meu Corpo, Minha Biografia”, no Sesc Botucatu, nos dias 12 e 13, e encerra essa intensa temporada literária em sua cidade natal, Poços de Caldas, durante o Rabiscos – A Festa (20 a 23 de agosto), quando lança a coletânea Narrativas Urgentes, organizada por ela e que reúne importantes vozes da literatura brasileira contemporânea.
