A Festa Quarto chega à sua 14ª edição em Goiânia celebrando um marco importante em sua trajetória: quatro anos de atuação na cena cultural independente da música eletrônica de Goiânia. A edição comemorativa acontece no dia 17 de julho, a partir das 21h, no Seiva Studio – Pista Galpão, reunindo DJs, performances artísticas, instalações visuais e uma curadoria musical que se tornou marca registrada do projeto.
Em quatro anos de existência, a Festa Quarto deixou de ser apenas um evento de música eletrônica para se consolidar como um dos principais espaços de experimentação artística e fortalecimento da cena cultural independente em Goiânia. Foi criada pelo produtor musical e DJ Pedro Tobeats, em parceria Luciano “DJ PoisNão”, a partir da vontade de abrir espaço para sonoridades e artistas que não encontravam lugar nas pistas tradicionais da cidade. A iniciativa já realizou mais de 40 edições, entre eventos autorais e colaborações, reunindo música, artes visuais, performances e uma comunidade que faz da diversidade e da construção coletiva sua principal identidade.
Em um bate-papo exclusivo para Mari Magalhães, colunista goiana do Zona Suburbana, Tobeats reflete sobre a trajetória da Quarto, a importância da representatividade na música eletrônica e os desafios de produzir cultura independente como um gesto de resistência política. Confira:
Mari Magalhães: A Quarto completa quatro anos agora. Qual foi o momento em que você percebeu que era necessário criar esse espaço em Goiânia?
Pedro Tobeats: Sempre houve um desejo de fazer um rolê que pudesse abraçar estilos sonoros que a gente gosta, que a gente tocava, mas que não tinha espaço na cidade em si. A cena sempre foi muito engessada. ‘Ou é isso aqui, ou não dá’. E eu acho que quando você junta com uma outra pessoa que tem o mesmo desejo, esse desejo toma mais força. Então, a partir do momento que eu e o Luciano tocamos juntos alguma vez, a gente viu que, cara, dá pra gente tocar essas paradas, saca? A gente conhece muita gente. Por que nós não tentamos? A gente conhece outras pessoas também que gostariam de tocar estilos diferentes, que não têm tanto espaço na cidade, vamos juntar todo mundo e fazer? Acho que o momento que eu percebi a necessidade disso foi muito antes da Festa Quarto existir. Desde sempre, eu acho assim, desde quando eu comecei a tocar.

Mari Magalhães: O nome “Quarto” carrega algum significado especial? Como ele se conecta à identidade do projeto?
Pedro Tobeats: Então, a primeira edição que nós fizemos, o nome da festa era ‘Um Quarto’, na verdade, que era um trocadilho sobre substâncias, mas também um trocadilho com o espaço que a gente usava, que não é literalmente um quarto, mas é um apartamento antigo no centro, basicamente. Então, passava uma vibe meio caseira, meio quarto, meio garagem, sabe? A gente queria trazer essa ideia. E aí Quarto veio nessa ideia de fazer um trocadilho com um pedaço ali. Ele remete mais a essa ideia mesmo de algo mais pessoal, algo mais íntimo. É uma festa que a galera, por mais que não se conheçam, se conhecem ali na pista, é uma ideia de trazer uma pessoalidade.
Mari Magalhães. Vocês chegaram à 14ª edição original, mas já realizaram mais de 40 edições colaborativas. O que essa trajetória revela sobre a força da cena independente em Goiânia?
Pedro Tobeats: Dessas 40 edições, tem edições colaborativas e algumas outras não, mas que não fazem parte do nosso circuito original, como a gente gosta de dizer. Mas também são festas importantes como a Toma, por exemplo, que é como se fosse uma sub-festa, um subproduto da Quarto, mais focada ali em sarração, músicas mais dançantes mesmo. E, cara, ter realizado mais de 40 edições,pra mim diz muito, principalmente pelo fato de que a maioria dessas terem sido colaborações. É difícil você falar que todo mundo tem os mesmos interesses, tá ligado? E nem deveriam ter mesmo. Cada um sabe do seu, sabe da sua dor, da sua causa, das suas intenções. Mas mesmo não sendo uma cena homogênea, é uma cena que demonstra um querer construir algo junto, sabe? Eu vejo que as pessoas, elas querem construir a cena, então isso me diz muito sobre isso, sobre uma cena que tá querendo se construir de forma conjunta.

Mari Magalhães: A curadoria da Quarto sempre chama atenção pela diversidade e pelo caráter experimental. Como vocês escolhem os artistas que fazem parte do line-up?
Pedro Tobeats: Sobre a curadoria, cara, cada edição é uma coisa. Tem vezes que tem algum artista específico que a gente quer trazer de fora, e às vezes esse artista vai ter um som específico, então a gente vai tentar encontrar pessoas que façam sons que dialoguem com esse som, e não exatamente o mesmo estilo. Na Quarto, a gente sempre busca trazer diversidade sonora também para todos os line-ups que a gente cria. Mas ainda assim, tem que ter uma coerência entre uma coisa e outra, tem que ter uma linha ali que amarra cada set dentro desse conjunto todo. Então a gente pensa muito edição por edição, especificamente, e aí, além dessa questão, a gente tenta nunca repetir muitos artistas, porque tem muito artista talentoso em Goiânia, pessoas próximas que fortalecem a Quarto, e que às vezes ainda não tiveram oportunidade de tocar, e a gente quer, é muito importante para a Quarto, que a gente dê esse espaço para a galera. Também a gente sempre busca botar em lineups a galera que estava conosco desde o começo, como a Cadelacéu, o Golden Joy, a Princess Mila, a Paulíssima, e isso sempre misturando com artistas que nunca tocaram, saca? A gente pensa muito também nessa questão do equilíbrio do lineup, entre homens e mulheres, entre pessoas da comunidade LGBT, pessoas pretas, tá ligado? Isso é muito importante para a gente também para dar essa representatividade genuína, pois cada uma representa uma faceta da cena.
Mari Magalhães: O manifesto “Música Eletrônica Marginal, Torta e Sem Direção” da Festa Quarto reafirma celebração como um ato político. Como essa ideia se manifesta na pista?
Pedro Tobeats: Festa como um ato político, principalmente quando se trata dessa linha de som que a gente fala, que é a Música Eletrônica, que ela bebe muito ali da fonte do Hip Hop também, da cultura Queer, da cultura Vogue, da Ballroom, esses estilos que influenciaram a nossa música eletrônica aqui. O House bebe muito da cultura negra. Então, dentro desse contexto do surgimento dessa cena, já é totalmente claro pra mim essa ideia da festa, desse encontro, na verdade, dessa reunião de pessoas dissidentes, com um ato político. Porque o fato dessas pessoas estarem reunidas, se divertindo, contribuindo culturalmente pra sociedade e criando o seu próprio movimento, a sua própria arte, seu próprio estilo, sua própria cena, isso por si só é um ato político. Está indo contra a todos os paradigmas que a indústria – e aqui eu falando a indústria do entretenimento e a indústria musical -, também contra essa pasteurização, homogeneização dessa cultura. Esse ato, essa cena junta, é uma voz contra esse tipo de padronização cultura. É um espaço genuíno de pessoas ali se reunindo para se divertir também. E trazer pro recorte atual, a Quarto é exatamente isso, é um lugar onde a gente sempre levanta essa bandeira de mostrar que a cultura do eletrônico tem uma origem e é uma origem preta, é uma origem gay, totalmente diferente dessa ideia de música eletrônica embranquecida que se vende muito por aí. A Quarto é uma festa que tem posicionamento, tem intenção, tem uma ideia por trás.

Mari Magalhães: A Quarto fala muito sobre construção coletiva. Como a comunidade ajudou a moldar o projeto ao longo desses quatro anos?
Pedro Tobeats: A comunidade contribuiu muito para a Quarto desde o começo. Seja nas questões de colaborações com outros selos que fazem parte dessa comunidade, seja com colaborações da galera, que é o público também. A pessoa que é público hoje, amanhã vira DJ na Quarto, ou expõe alguma arte lá, como artes visuais, fotógrafos. Então a galera que trampa na Quarto é geralmente a galera que gosta da festa também, que está sempre contribuindo com sugestões e divulgando a Quarto pra outras pessoas.
Mari Magalhães: Pedro, depois de quatro anos de resistência cultural, experimentação sonora e construção de comunidade, o que a Quarto ensinou para você sobre arte, cidade e pessoas?
Pedro Tobeats: Me ensinou tantas, mas tanta coisa, saca? Ela me ensinou que é mais difícil do que parece construir uma cena, principalmente se tratando de uma cena alternativa, underground, marginal aqui em Goiânia. Isso é realmente um trabalho de resistência. Ela me ensinou a importância de se construir e valorizar a nossa cena local, apoiando os nossos artistas aqui, realmente fazendo um trabalho de educar o público a não depender de artistas de headliners, artistas grandes para um evento fazer sucesso. Me ensinou que o jogo é muito mais complicado no sentido de que, quando você não tem recursos, seja em espaço físico ou equipamento sonoro, você tem que se adaptar ao jogo dos outros. Mas me ensinou também que a união da galera pode ajudar a construir coisas grandiosas.
Mari Magalhães: O que o público pode esperar de diferente nessa edição comemorativa?
Pedro Tobeats: Cada edição tem uma energia diferente, no sentido de pessoas diversas tocando, experiências diferentes que podem acontecer ali. Tem edições que a gente traz intervenções visuais e essa vai ser uma delas. Vamos fazer uma instalação visual lá no palco, vai rolar a performance como sempre rola também. Temos alguns DJs inéditos que nunca tocaram em Goiânia e alguns que nunca tocaram na Quarta. Então acho que isso, por si só, também já traz um ar especial para essa edição.

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