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Pedro Borges, do portal Alma Preta, fala sobre mídias negras e luta contra o racismo com exclusividade para o ZonaSuburbana

por Arthur Venturi Vasen

Pedro Borges, hoje com 25 anos, é formado em jornalismo pela Unesp, jornalista da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD) e jornalista e co-fundador do portal Alma Preta, um portal influente que traz diversos temas relacionados ao mundo negro, especialmente trazendo matérias relacionadas ao empoderamento negro, à construção de uma identidade negra positivada e denúncia/combate ao racismo.

Em uma entrevista exclusiva para o ZonaSuburbanaPedro falou sobre a fundação do Alma Preta, sobre ativismo digital, sobre a importância do rap e da cultura hip hop na luta contra o racismo e sobre seu papel na “disputa de narrativas”, ou seja, seu esforço para criar conteúdos alternativos às mídias hegemônicas que reproduzem frequentemente uma série de preconceitos e atos discriminatórios à população negra, às mulheres, às camadas mais pobres da sociedade brasileira e às pessoas que fogem do padrão heretossexual ou se identificam com um gênero diferente daquele com o qual nasceram.

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Pedro Borges, 25, formado em jornalismo na Unesp, jornalista da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD) e jornalista e co-fundador do portal Alma Preta

Acompanhe o trabalho do Alma Preta clicando AQUI e confira, abaixo, a entrevista completa:

ZonaSuburbana: Como surgiu a ideia do Alma Preta?

Pedro Borges: O Alma Preta surge de dois movimentos históricos distintos: um mais longínquo e um outro muito mais recente. Primeiro, de uma existência histórica da mídia negra no Brasil. A imprensa escrita existe no Brasil desde 1808, com a chegada da família real no Rio de Janeiro, e, logo na sequência, em 1824, surge o primeiro jornal da mídia negra. Então a imprensa negra é um imprensa que existe desde o início dessa caminhada, sempre existiu, sempre teve um papel importante de mostrar os interesses do grupo negro no Brasil. O Alma Preta também se encaixa dentro de um movimento mais recente, que é da maior entrada de alunos negros nas universidades e da construção do Coletivo Negro dentro da Unesp. Nós construímos o coletivo no começo de 2015 com muita influência do nosso professor Juarez Xavier, que hoje é coordenador do Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão da Unesp, e que acompanha desde o início o Coletivo e o Alma Preta. Assim, a ideia do Alma Preta é a de construção de uma narrativa midiática negra, pensando numa disputa de narrativas dentro da opinião pública.

ZonaSuburbana: No portal, vocês falam sobre os mais diversos assuntos relacionados ao Mundo Negro: política, luta contra o racismo, religião, artes e muito mais. Como vocês fazem a conexão entre tudo isso?

Pedro Borges: A gente entende que a questão racial no Brasil, o problema do racismo estruturante, é um problema central. Então, entendemos que ele é um pilar e uma base de sustentação das demais construções e dos demais valores que foram constituídos dentro da sociedade brasileira. Assim, o racismo é um pilar edificante de separação e que temos dentro dos veículos de comunicação, da educação, da saúde: ele está presente em todas essas esferas, assim como as questões de gênero, orientação sexual, e classe. Então a conexão que a gente faz é muito simples, feita quase de maneira natural na medida em que a branquitude, uma sociedade de classes, que deriva do patriarcado, heteronormativa também faz uma relação tranquila entre todos esses assuntos: a mídia hegemônica cria conteúdos articulando todos esses assuntos porque há também uma compreensão de que são assuntos estruturantes. Então há uma disputa de narrativas e a gente está nessa disputa.

ZonaSuburbana: O que você entende hoje por ativismo digital? Como o Alma Preta se articula com essa proposta?

Pedro Borges:Essa é uma coisa muito difícil, é algo que está acontecendo de uma forma muito pulsante agora. Acho que essa questão do ativismo dentro de plataformas de tecnologia sempre aconteceu. Acho que hoje estamos apenas trabalhando em novas plataformas. Também, sempre existiu ativismo em debates sobre opinião pública, desde a época do Luiz Gama, um autor que escreveu muito nos jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Então essa disputa pela opinião pública, pela construção de imaginários sempre aconteceu. Só que hoje existe uma questão que está posta: vivemos em uma sociedade midiatizada em que as relações sociais são pautadas e praticamente dependem dessas plataformas de comunicação. Enfim, eu gosto muito do pensamento do Milton Santos, um geógrafo que fala sobre a “popularização das técnicas”: na época, ele tinha um deslumbre muito grande pelo computador – ele dizia ser algo que poderia democratizar o acesso ao conhecimento. O Milton Santos faleceu e não chegou a ver as revoluções dos aparelhos celulares. Hoje, a maioria dos leitores dos portais e a maior parte das comunicações são feitas a partir de aparelhos celulares. Muitas denúncias contra a violência policial, por exemplo,também são feitas assim. Então entendo que o ativismo digital é uma disputa dentro da opinião pública, é uma disputa de narrativas e acho que hoje vivemos em uma sociedade onde isso está mais evidente na medida em que essas técnicas se tornaram mais populares, mais acessíveis, e também na medida em que vivemos em uma sociedade que pode ser considerada midiatizada. E o Alma Preta está dentro dessa proposta: a nossa criação também está dentro dessa ideia de popularização da técnica já que construir um site hoje é muito mais barato do que a 10 anos atrás, já que hoje podemos ter acesso a uma câmera fotográfica, já que podemos ter acesso à internet, etc. Então o Alma Preta, dentro dessa disponibilidade técnica, também constrói uma narrativa muito bem definida.

ZonaSuburbana: Sobre a cultura hip hop e o rap, você acompanham? Vocês acreditam que esses ainda são meios de expressão contra o racismo?

Pedro Borges: Cara, eu acompanho bastante o hip hop e o rap. O resto da equipe também. Nós surgimos em Bauru, que hoje é uma cidade que acompanha intensamente a cultura hip hop: a maior semana de hip hop da América Latina acontece lá, em uma cidade com 350 mil habitantes que também abriga uma Casa do Hip Hop muito bem organizada. É algo fantástico o que acontece lá. Além disso, o fato de termos sido criados também nas periferias de São Paulo (Freguesia do Ó e Brasilândia) e termos crescido ouvindo rap. Quem não teve a construção da sua identidade negra passando pelo “Negro Drama” dos Racionais? Também acompanho muito as novas turmas do rap. Acompanhei bastante a maior visibilidade das mulheres no rap: a Tássia Reis e a Yzalú, que são meninas que a gente do Alma Preta também já teve o prazer de entrevistar. Também acompanhamos os meninos mais novos, como o Coruja, que é da cidade de Bauru, o Rincon Sapiência, o poeta Akins Kinte… Então acompanhamos muito e eu penso que seja sim uma ferramenta muito poderosa de combate ao racismo na medida em que as narrativas e a própria comunicação, as mídias, são muito diferentes: uma música também é uma mídia, uma forma de comunicação, pode passar uma mensagem muito forte, muito potente e, por vezes, muito mais popular do que uma mensagem jornalística, um texto. Então acredito que o rap seja uma ferramenta que permite reflexão, permite questionar os problemas estruturais da sociedade. Não tenho dúvidas de que o rap é sim uma ferramenta muito importante contra o racismo.

ZonaSuburbana: Quais facilidades ou dificuldades você têm encontrado sendo um dos representantes da mídia negra no Brasil?

Pedro Borges: Olha, facilidade acho que são poucas. Acho que podemos pensar em facilidades com relação à construção da mídia negra. Quando estudamos o histórico da mídia negra, vemos que ela tinha uma pegada ainda mais militante e menos empreendedora. Hoje os comunicadores negros, de uma maneira geral, tem construído seu trabalho com um olhar mais empreendedor, de sustentação desses negócios. Então talvez uma facilidade seja essa, apesar de não ser uma facilidade, ser uma meia-verdade: logo nós já esbarramos em dificuldades. Em dificuldades estruturais: por exemplo, se nós fazemos um crowdfunding ou uma campanha de financiamento, nós estamos falando de um grupo marginalizado economicamente e inclusive com dificuldades financeiras de ajudar a patrocinar uma mídia que represente esse grupo. Também a partir do racismo institucional: pouco apoio de instituições, governamentais ou privadas, para nosso projeto. Há, também, uma dificuldade em relação à pauta, à importância de uma mídia negra, ao olhar e ao entendimento de que a questão racial é sim uma questão estruturante assim como gênero, classe e orientação sexual. Na medida em que a gente se coloca no espectro político da esquerda, que acredita que a superação do racismo perpassa um novo modelo econômico, também nos encontramos com pessoas que tem muita dificuldade de dialogar com essa questão racial, que não entendem a questão racial como estruturante, que setoriza a nossa questão. Além disso, não podemos dizer que fazemos um jornalismo de minoria, já que a população negra representa mais de 50% da população brasileira, mas há dificuldades de identificação, discursos sobre meritocracia ainda muito pulsantes no Brasil e tudo isso configura dificuldades. Acredito, contudo, que temos conseguido acabar com o discurso da democracia racial: a mídia negra tem atuado de maneira conjunta na busca de um público leitor. Então temos tido problemas, mas temos conseguido enfrentá-los.

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