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A importância do Emicida na cena como um todo

Emicida e a sua importância na cena como um todo

por Joaozinhocwbeats

Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido pelo nome artístico de Emicida, é um rapper, cantor e compositor brasileiro. É considerado uma das maiores revelações do hip hop do Brasil da década de 2000. O nome “Emicida” é uma fusão das palavras “MC” e “homicida”, caso você ainda não saiba a origem desse nome.

Os MC’s de hoje que você gosta de ver batalhando, em algum momento olhou as batalhas do Emicida e pensou, “Caramba, é isso que eu quero fazer!”, Pois Emicida massacrava seus adversários em forma de rimas, desde sempre.

Triunfo” foi a projeção nacional para tudo que está acontecendo hoje, porém, hoje é a seguinte frase que faz sentido: “Triunfo, se não for coletivo, é do sistema”. Que ele narra tão bem em “O Céu é o Limite” junção dele, Rincon, BK, Djonga, Rael e Mano Brown em um beat incrível do Dvasto.

O canal “Meteoro Brasil” fez um vídeo bem legal explicando quem é o Emicida e você pode conferir aqui em baixo.

O Emicida de hoje, 10 anos depois, é um Emicida positivo, que busca sonhar cada vez mais e alcançar o imaginável e faz com que as pessoas acreditarem que é possível também.

É muito louco eu escrever isso hoje, em 2008 eu não gostava do Emicida, não me identificava e achava totalmente errado ele ganhar dinheiro com sua arte e quando o dinheiro começou aparecer, eu e principalmente meus amigos que era fã de carteirinha dele, compravam todos discos, roupas e fazia “Noiz” com os dedos a cada comprimento entre nós mesmo, (sim, nessa época ainda vendia discos físicos e você tinha a honra de pegar direto da mão dos próprios artistas, olha que loucura! Hahaha), achava bizarro, que ele não poderia viver da sua arte, sua música, algo que todo artista que é talentoso, sagaz e merecedor, MERECE GANHAR SEU DINHEIRINHO E VIVER DISSO.

Eu tinha apenas 14 anos e não entendia nada sobre a vida, sobre preconceitos, sobre privilégios e tudo que uma pessoa branca que tem seus pais casados até hoje, tem em mãos. 12 anos após, hoje em dia eu me identifico 100% em várias questões (mesmo que em graus bem menores que algumas pessoas) e o melhor, eu entendo e isso é o principal motivo de eu estar falando sobre a arte do Emicida ser tão importante pra mim e pra qualquer outro moleque que ama, sonha ou até mesmo sonhou em viver disso no Brasil um dia.

E esse processo entre ganhar dinheiro com o rap e ser visto como modinha, um cara que não ama a cultura ou qualquer barbaridade desse nível, vem contemplar anos após com um Grammy Latino e aí que separamos os verdadeiros homens dos meninos.

Virei fã do Emicida, de ir em show, comprar as roupas, vestir a camisa pra valer e bater de frente com qualquer um que falasse algo sobre ele, em 2013, quando eu ouvi “Hoje Cedo” com a Pitty. Essa música representa muita coisa na minha vida e foi com ela que meu entendimento em viver da sua arte não tem nada de errado no Brasil, ainda mais se você vem de um lugar onde você é sempre alvo. A famosa frase presente na música citada por EmicidaSe a sociedade vende Jesus, por que não ia vender rap”, ela representa muita coisa e tem várias colocações, inclusive na vida de cada um que sonha em viver disso um dia.

Antes de eu contar sobre o atual momento do rapper, em 2009/2010 Leandro fazia a capa, assinatura tudo na mão com o CD “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe…”, na casa do Nave aqui em Curitiba, produzia e gravava vários e vários cds e vendia por apenas 2 reais nas ruas, shows… Então saiba que: Se você hoje é um rapper independente, esse cara tem um dedinho nisso tudo.

Foto: Nave e Emicida

E o mais louco de tudo isso: 10 anos depois essa dupla, Emicida e Nave, recebem o maior prêmio da história da música latina/mundial, o famoso Grammy Latino, “Amarelo” foi contemplado e premiado pelas incrível faixas presentes nas sensíveis falas de Emicidas e suas participações, mesmo que disponibilizado em novembro de 2019, em 2020 essa obra teve o maior impacto devida a pandemia que estamos vivendo, inclusive o maior sucesso do disco e que leva o nome do próprio CD conta com a participação de Majur, Pablo Vittar e a releitura, sampleação e admiração ao cantor Belchior que narra no refrão:

“Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro”

Emicida, Majur e Pablo Vittar (Foto: Jefferson Delgado)

Diz muito sobre o tempo sombrio que estamos vivendo. E olha o quanto isso é importante, Emicida reuniu duas das maiores artistas desse Brasil em uma faixa unindo esperança, fé e mensagens positivas sem deixar o papo reto de lado e fazendo todo fã de rap no minimo respeitar as causas LGBT+, porque convenhamos, a nossa cultura infelizmente ainda é machista. Emicida fez um monte de marmancho cantar Pablo Vittar e Majur a toda altura em todos cantos do País, isso é lindo.

Agora temos o Emicida no Teatro Municipal e seu documentário na Netflix, fechando o ano de forma genuína. O documentário conta com cenas narradas por Emicida sobre o movimento negro e a importância de fazer o show num palco que é marco da cultura brasileira.

Emicida canta “A Chapa É Quente” no palco do Theatro Municipal (Foto: Jeferson Delgado)

O espetáculo tem a proposta de estabelecer um elo entre o show e dois momentos importantes da história e da cultura passados dentro e fora do Teatro Municipal: a Semana de Arte Moderna de 1922 e a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978.

São quatro décadas que separam a nossa ascensão ao palco do Theatro Municipal do encontro das pessoas do MNU naquelas escadarias. Então, subir ali e gritar ‘obrigado, MNU’ pro mundo é para que eles saibam que é da luta deles que nasce um sonhador como o Emicida”, diz o rapper, no comunicado do projeto.

No camarim, Emicida se encontra com representantes do Movimento Negro Unificado. Da esquerda para a direita: Emicida, Wilson Simoninha e representantes do MNU (Foto: Jeferson Delgado)

Com 90 minutos, o documentário foi lançado dia 8 de dezembro. Além disso, a Netflix e a produtora Laboratório Fantasma, tem um segundo projeto em desenvolvimento, que será lançado em 2021.

A Carla Silva viveu esse momento e escreveu sobre no site da Lab, você pode conferir aqui. Nada que eu falar vai descrever melhor do que ela mesmo que viveu isso do começo ao fim de pertinho, por isso, após chorar horrores com o documentário, com a linda história contada por Emicida, Fioti e todo pessoal do backstage, entrei em contato com algumas pessoas presentes nesse show pra me contarem a visão deles desse momento histórico vivido ao lado do maior artista do rap da década, com vocês, Tiago Barbosa (MC e Advogado *Lab Fantasma) e Felipe Mascari (Rap TV), que me responderam até o fechamento dessa matéria.

Tiago Barbosa: 1 – O que o Emicida representa na sua vida? R: Na era da referência ele é uma, como artista, pessoa, intelectual, amigo, além de ter uma afinidade imensa com o impossível.

2 – O que o Emicida representa na sua arte? R: Uma quebra de paradigma, posso escrever sobre o que eu quiser, gravar como quiser, lançar e divulgar meus produtos como acho que devo, foi a pessoa que melhor evidenciou a situação de ser dono do que é seu, fora que é uma grande inspiração.

3 – Qual foi sua sensação ao ver o Emicida encher o Theatro Municipal da maior cidade da América Latina? R: A sensação foi de ter presenciado a realização do sonho mais lindo dos nosso antepassados.

Felipe Mascari: 1 – O que o Emicida representa na sua vida? R: Pessoalmente, Emicida tem uma representação de uma nova perspectiva de vida. Aos 14, quando ouvi Emicida pela primeira vez, fui inicialmente impactado. “Triunfo” abriu uma nova forma de enxergar a vida e a arte. Sem ideias de futuro, fui capaz de me ver num novo horizonte, com um novo pilar para construção de minha personalidade e sonhos futuros.

Emicida representa um novo horizonte aberto, um norte para uma vida vaga. Foi uma bussola que, hoje, me mudou profissionalmente. As minhas conquistas pessoais e profissionais passam por ele. Hoje, se tenho um sentido no dia a dia, o grande responsável é o Leandro.

2 – O que o Emicida representa na sua arte (RapTV)? R: Se o Emicida foi a minha grande porta de entrada para o rap, ele é o responsável pela existência do RAP TV. Meu primeiro show, foi na plateia dele, quando o vi na Hole. Desde então, sonhava em filmar amadoramente esses rolês. Ele despertou a vontade do projeto, que foi colocada em prática, em 2013, para esses registros. Ou seja, se existe RAP TV, é pelo Emicida.

Não só isso. Quando vi Emicida no Abujamra, foi um novo exemplo de como eu queria seguir na carreira. Indiretamente, Emicida me apresentou um jornalismo e um formato de entrevista que acabou me inspirando na construção de pautas completas no RAP TV.

3 – Qual foi sua sensação ao ver o Emicida encher o Theatro Municipal da maior cidade da América Latina? R: Quando entrei no Theatro Municipal foi algo estranho. Por alguns anos, trabalhava num telemarketing vizinho de lá e nunca pisara dentro. Passava pela porta e nunca me vi como um público daquele local, sempre visto como elitista excludente. Então, quando pisei lá, foi tudo novidade, que impressionava a cada passo dado lá.

Ter o Emicida ocupando esse espaço, como um rapper preto e de uma cultura marginalizada, é histórico e representativo. É um marco para o hip-hop e o povo preto, até pelo fato de lá ter surgido o MNU. Então, Emicida reescreve a história do Municipal, mostrando que é possível levar a arte preta lá dentro.

Obs: Aos demais que tentei contato, fiquem a vontade para me dar um salve caso isso chegue até vocês, será um prazer imenso contar com a colaboração de todos nessa matéria <3

Foto capa: Maurício Nahas para Revista Joyce Pascowitch

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