Home EditorialDinossaurosRAP Def Yuri fala sobre rap numa época em que internet era coisa rara

Def Yuri fala sobre rap numa época em que internet era coisa rara

por ZonaSuburbana

Um dos representantes da velha escola do rap carioca, fala sobre a coletânea Hip Hop Pelo Rio, lançada em 1998

Banquei a produção incluindo prensagem, estúdios, masterização. Selecionei os grupos. Fiz a distribuição do material, articulei mídias alternativas e hegemônicas. Em decorrência da percepção dessa correria, um parceiro de longa data, José Júnior, do Afroreggae, propôs uma ideia: fazermos o lançamento da coletânea. Lançamento que se tornou o maior evento de rap gratuito no Rio de Janeiro, onde, além dos participantes da coletânea, tocaram: GOG, Thaide & DJ Hum, Cambio Negro, Marcelo D2/Planet Hemp, Jigaboo, Afro Reggae, entre outros.

A ideia da coletânea surgiu da necessidade de abrir espaços. O RRR (Ryo Radikal Repz), meu grupo, lançaria um CD, porém identifiquei um grande problema: eu lançaria o material, mas a cena continuaria a mesma, num intenso e interminável stand by.

A ideia era mexer com a cena e abrir novas possibilidades. Parte disso foi alcançado, principalmente para os artistas conhecidos nacionalmente e respectivas gravadoras que souberam aproveitar o evento nos Arcos da Lapa para alavancarem suas carreiras. Para alguns participantes, a coletânea e evento serviram para contemplar um sonho, porém isso, de forma geral, não se desdobrou em ações efetivas. Creio que tornou-se uma espécie de embriaguez.

def-yuriTodos celebraram o evento, mídia, reconhecimento, mas o embalo não foi aproveitado como deveria. Sou crítico aos desdobramentos desde aquele momento e cada vez que analiso sou ainda mais crítico. Apesar que nessa altura do campeonato entendo que para muitos aquilo foi o apogeu de anos de sonhos e luta.

Complicado abordar algo quando se está envolvido até a alma no processo. Idealizar capa, idealizar várias etapas, mas identifico o Hip Hop pelo Rio como um divisor de águas. É um marco natural que encerrou e renovou um período – para aquilo que percebemos nos últimos 18 anos.

O Hip Hop pelo Rio foi um sonho individual que conseguia refletir o sonho de muitos que tinham passado e orbitado por essa cultura. Esse sonho foi compartilhado, mas não foi apropriado na íntegra por muitos dos envolvidos para além do evento.

Por outro lado, é muito bom identificar que volta e sempre novas gerações citam e esmiuçam aquilo que foi feito. Lembro bem que ninguém do meio acreditava que esse projeto seria realizado, isso me trouxe ainda mais gana de prosseguir e mostrar que era possível colocar quase 80 minutos de rap carioca nos falantes de pessoas de vários locais do Brasil. Numa época que e-mail era algo raro. Era telefone, carta, telegrama e, principalmente, gastar canela.

Por: Def Yuri
Saiba mais sobre a Coletânea Hip Hop Pelo Rio

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