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Festival MisturAí: quando a cultura rompe barreiras sociais e chega onde precisa estar

Goiânia viveu um dos momentos culturais mais significativos do ano com a 2ª edição do Festival MisturAí. Mas, diferente de tantos outros eventos musicais que lotam os grandes centros e palcos da capital, este festival se destacou por um motivo essencial: ele aconteceu onde raramente algo assim acontece – no Setor Jardins do Cerrado I, um dos bairros com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade.

Ao levar uma programação diversa e gratuita para uma comunidade historicamente excluída dos circuitos culturais, o MisturAí não apenas entreteve, mas rompeu barreiras socioeconômicas que, por muito tempo, mantiveram o acesso à arte como um privilégio de poucos. A escolha do local foi, por si só, um ato político e simbólico: mostrar que a cultura deve (e pode) ocupar todos os espaços, especialmente aqueles onde ela é mais urgente.

Durante os dias 12 e 13 de abril, a praça do setor foi tomada por cores, sons e ritmos vindos das periferias e da efervescência da música contemporânea brasileira. De batalhas de MCs a oficinas interativas, passando por uma feira criativa e espaço infantil, o MisturAí construiu um ambiente de convivência intergeracional e multicultural – tudo gratuito, acessível e pulsante.

Guimas & Jovem Shu (Foto: Mari Magalhães)

Mas o que realmente elevou o festival foi a presença de nomes de peso da cena atual, artistas que vêm transformando a música brasileira em seus próprios territórios. Entre os destaques, vale mencionar a potência das rimas de Guimas e Jovem Shu, o encontro delicado entre MPB e samba no show de Conceição & Elas, e a força poética de Lara Evelin convidando Silvvr. O violinista Jeferson Leite emocionou com seu forró carregado de sentimento, enquanto DJ Iara Kevene manteve o público dançando com uma discotecagem hip hop enérgica. O sábado encerrou com o baile pesado e irreverente da Madrinha Odara, trazendo o funk proibidão com ousadia e representatividade.

Já no domingo, o pagode do mestre Xandão no início da tarde, passando por diversas outras atrações até a consagração da noite com o DJ Tubas, fenômeno do eletrofunk, que selou o encerramento com uma apresentação explosiva – um verdadeiro presente para o público da quebrada, que pôde ver de perto um artista do topo das paradas, ali, no chão da sua própria comunidade.

Mais do que um festival, o MisturAí é parte de um movimento nacional que vem transformando a forma de se fazer e distribuir cultura no Brasil. Assim como o Favela Sounds (DF), que ocupa regiões como Ceilândia com música das favelas do mundo; o Festival Percurso (SP), que desde a Brasilândia amplia o alcance da arte negra e periférica; o IMUNE (MG), que dá palco à música preta das periferias de BH; ou o Festival Subúrbio em Cena (BA), que reverbera a força cultural do Subúrbio Ferroviário de Salvador, o MisturAí entra para essa lista de festivais que nascem e florescem dentro das quebradas – e não apenas chegam até elas.

Com patrocínio do Instituto Cultural Vale, via Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e produzido pela Ire Gbogbo Produções, o Festival MisturAí prova que, quando a cultura encontra o povo onde ele está, ela se torna ferramenta de transformação social. E mais do que isso: ela cria memórias, pertencimento e orgulho de território.

O MisturAí é o som das quebradas se misturando – e fazendo história.

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