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O relato de um gay dentro da cultura hip hop

por Arthur Venturi Vasen

Desde que me assumi aos 18 anos nunca escondi de ninguém o fato de ser gay, nem da galera do Rap. Mas isso nem sempre foi uma vantagem.

Para começar, é bem difícil conhecer outros gays que estejam bem inseridos no mundo Rap. Um dos motivos é que no Pop e na música eletrônica há uma grande aceitação da galera LGBT e existem vários artistas que abertamente defendem nossas causas e lutam por melhorias como Lady GagaDemi Lovato, entre outras. Por conta disso, nós gays nos sentimos muito mais confortáveis nesse tipo de ambiente sabendo que, se beijarmos alguém (do mesmo gênero) isso não vai causar espanto, assim como se dançarmos da forma como quisermos e formos “afeminados”.

Isso é muito mais difícil de acontecer em rolês de Rap. Eu, em diversos eventos que já fui em diversas quebradas da cidade de São Paulo, raramente vejo outros gays no mesmo lugar. E, quando vejo e reconheço alguém que seja gay, vejo que essas pessoas agem de forma camuflada: começam a acompanhar uma música do Sabotage, por exemplo, e vendo que o corpo está denunciando sua forma de ser, logo se “concertam” e passam a agir de forma que dê “menos pinta”. Por que eles sabem, como eu sei, que não é fácil ser gay no Rap.

Eu não consigo nem mais me lembrar quantas vezes ouvi algo do tipo “Nossa, Arthur, eu realmente gostei de você: você é gay mas não fica ostentando isso, não é muito afeminadinho”, ou seja: eu sou aceito contanto que não demonstre e tente sempre esconder quem eu sou de verdade. Em mais de uma situação fiquei em um círculo só com heterossexuais falando sobre suas aventuras sexuais e/ou como determinada mulher ou rapper é “gostosa” e assim que eu comecei a falar sobre as minhas experiências sexuais isso fez com que, de repente, vários do círculo onde eu estava tivessem que ir ao banheiro, buscar uma cerveja ou fazer uma ligação.

Também perdi a conta de quantas vezes eu fiz amizade com alguém do Rap, começamos a conversar sobre determinado rapper ou determinado álbum que acabou de lançar, aí quando essa pessoa descobre que eu sou gay simplesmente desaparece porque “está cheia de trabalho na empresa” mas “sente muito por sumir”.

E nem colocamos em pauta o fato de ouvir comentários bastante negativos sobre homens que se vestem como mulheres, sobre gays que não conhecem Jesus e que por isso estão vivendo uma vida cheia de pecados, sobre rappers que para humilhar os outros os chamam de viados em freestyles e pessoas dizendo que determinada mina lésbica “não é mulher de verdade né, é um homenzinho” ou “é um desperdício, mas pelo menos é gostoso ver duas se pegando, quem sabe elas me deixam entrar no meio da brincadeira”, etc.

E, na moral, todas essas situações tem um nome só: Homofobia. Não se trata só de dizer que não acha que os gays são pessoas piores ou frases como “Não sou homofóbico, mas…”. Apenas quando realmente se tratam os gays como pessoas iguais é que se combate a homofobia: não com palavras vazias.

E, cá entre nós, o Rap e a cultura Hip Hop lutam desde as suas origens contra a discriminação social, pela melhoria da qualidade de vida das pessoas da periferia e contra todos os efeitos do racismo na sociedade. Nada mais justo do que reconhecer que assim como as pessoas negras e as populações que moram nas diversas quebradas do Brasil sofrem, as pessoas LGBT também sofrem e também precisam de apoio especialmente considerando que o Brasil é o pais do mundo todo que mais mata pessoas LGBT, especialmente travestis. Isso precisa acabar e nós gays precisamos de força na nossa luta. E, especificamente, nós gays que estamos no Rap precisamos de mais respeito, mais figuras de referência entre os rappers consagrados, mais voz, menos desrespeito de qualquer forma que seja e definitivamente precisamos de mais espaço para sermos nós mesmos.

Se nós do Rap e do movimento Hip Hop somos todos irmãos, se temos algo que nos conecta e se lutamos por mais igualdade no mundo, nós gays não deixamos de ser seus irmãos por conta da nossa orientação sexual ou identidade de gênero. Nós gays do rap somos exatamente iguais a vocês e só queremos que vocês percebam isso.

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