A rapper, pesquisadora e diretora musical Ju Dorotea lança no dia 24 de abril seu aguardado primeiro álbum, “OH NÓIS AQUI”, um trabalho que chega como um manifesto de existência, resistência e autoestima dentro do rap nacional. Com forte protagonismo feminino, o projeto construído ao longo de três anos consolida a artista na cena independente, trazendo uma sonoridade que mistura hip hop, afrolatinidade e ritmos diversos. Ouça nas plataformas digitais.
“‘OH NÓIS AQUI’ nasceu como um grito de resistência. Com o tempo, esse grito virou também a minha história. O álbum demorou, pausou, mudou comigo entre maternidade, trabalho, cansaço e renascimentos. Mas não se perdeu!”, afirma Ju Dorotea. Para celebrar o lançamento, Ju fará um pocket show no dia 30 no espaço CCS Movimento, na Lapa, com entrada gratuita.
Com sete faixas, o álbum percorre temas como memória, prosperidade, acessos e identidade, conectando vivências pessoais a uma dimensão coletiva. A frase que dá nome ao projeto — “Oh nóis aqui!” — sintetiza esse posicionamento: uma afirmação potente de presença em um cenário historicamente marcado por desigualdades, especialmente para mulheres negras e afrolatinas.
O protagonismo feminino é um dos pilares do projeto. Na primeira faixa, “Agoji”, um trap com funk carioca, intenso e combativo, a artista fala sobre o combate contra uma estrutura racista, um levante contra o sistema que oprime pessoas negras até os dias de hoje. A referência vem do nome da unidade militar de elite composta exclusivamente por mulheres, no Reino do Daomé (atual Benim, África Ocidental) entre os séculos XVII e XIX. Altamente treinadas, temidas por sua força e agilidade, elas protegiam o reino, foram símbolo de resistência contra a colonização francesa e inspiraram o filme “A Mulher Rei”, interpretado por Viola Davis. “De geração em geração que a gente vai chegar na meta/ Bença pra tatatatataravó analfabeta/ Oh nois aqui to bem nessa linha, eu sou poeta/ Vai ter citação no tcc de mestre da minha neta”, ela dispara na música. A produção da faixa, que tem energia cinematográfica e beat poderoso, é de Lastra, que já trabalhou com Urias e Xamã e é autor de “Trap Máfia”, trilha usada na campanha da NBA e NFL.
Outro destaque é “Mira el Fuego”, que trata poeticamente do fogo e da fumaça, elementos que compõem a paisagem de Volta Redonda, onde Ju morou por alguns anos, usando metáforas e referências à obra clássica “O Mágico de Oz”. Composta em parceria com Ramiro Mart, a letra reflete sobre a relação conturbada entre a indústria e a cidade cinza: “Eu vivendo na sombra do dragão da fumaça quente/ Que dorme profundo, é só por Deus/ Foi engolindo um por um dos meus parentes/ Só cuspindo aço, nesse breu”. A música deve ganhar ainda um clipe gravado na cidade.
Das sete faixas, quatro contam com beats assinados por mulheres beatmakers, reforçando a presença e a força criativa feminina também nos bastidores da produção musical. Além disso, o álbum reúne parcerias com artistas de diferentes territórios do país, como Rio de Janeiro, Baixada Fluminense, Volta Redonda, São José dos Campos e Curitiba, promovendo intercâmbio cultural e ampliando as conexões dentro da cena independente.
Com beats dançantes, letras afiadas e uma identidade estética marcante, Ju Dorotea se posiciona com firmeza em um momento de expansão de carreira, ampliando seu público e fortalecendo sua presença no rap brasileiro. Com 10 anos de trajetória, ela já lançou 2 EPs, 4 Cyphers, 12 singles e participações, entre outros projetos.
Diretora musical do hub criativo #estudeofunk, na Fundição Progresso, e pesquisadora de cultura urbana, a artista articula sua trajetória entre música, produção e pensamento crítico, conectando diferentes territórios e fortalecendo redes no hip hop nacional.
Depois de tudo, a mensagem é direta e impossível de ignorar: “Demorou, mas chegou. OH NÓIS AQUI”.
