Artista natural de Itaquaquecetuba (SP), Jean Sense ingressa na cena transcrevendo a música como uma colagem de memórias, desejos e receios encaixados de diferentes formas para além do rap. O EP “Ensaio” é quase uma reafirmação da realidade que Jean Sense conhece e reconhece – com sete faixas, o projeto passeia entre o peso dos dias e a intuição ancestral, como o gesto de um corpo que tenta existir apesar das frestas. Explorado através de áudios de WhatsApp, samples e arranjos, “Ensaio” é um rito de travessia entre música e realidade. A obra já está disponível nas plataformas digitais.
O primeiro passo é a faixa “Gye Nyame”, produzida por Jean, que traz a voz de sua matriarca lendo Eclesiastes como quem costura esperança no ar, junto à inocência infantil de seu irmão caçula – duas faces de um mesmo problema. “GYE NYAME carrega o nome de um Adinkra que simboliza o tempo e resiliência de Deus, trazendo consigo o fardo de admitir que há lutas em que não se pode vencer, apenas esperar e perseverar”, complementa o artista.
Em “Tchau”, com produção de Kid The Correria, o corpo respira e a vida chama-se urgente. Leticia Ray sopra luz no refrão, e as colagens sonoras do final puxam de volta para a realidade. Já em “Dever”, o coração do EP pulsa mais forte: visceral e cru, exige digestão. “O processo da escrita e da escolha das músicas dizem isso nitidamente, é o primeiro passo em direção ao novo e do que mais almejo, fazer com que as pessoas se lembrem do que sentiram ouvindo, tornando-o assim eterno”, explica Jean.
“Laroyê” reverencia a divindade dos caminhos, abrindo espaço para o indizível. A produção pulsa como um corpo que quer saltar, correr, existir, enquanto a letra entrega o desejo de lutar até o limite. Em seguida, “Homem-Saudade”, escrita em 2023, extrapola o que o artista entendia de sentimento.
Na reta final, “Juventude” surge como interlúdio e espelho, com palavras de Guilherme Coyoaccan sobre o enigma de crescer. Por fim, “Mar” fecha o ciclo como um colo, para poder voltar ao começo mais uma vez. “Embora sempre pareça que eu fale de alguém, eu na verdade falo mais de mim, discutindo no espelho. Eu precisava me perdoar. E então, MAR veio”, finaliza o artista.
Aos 20 anos, Jean Sense derrama em sua arte tudo aquilo que acredita, trazendo sua realidade e bagagem de vida. Quer criar um espelho para o público – não como admiradores, mas como pessoas que compartilham os mesmos valores. Suas maiores referências vêm de gêneros afro-brasileiros, indo do soul ao samba e passando por sonoridades de religiões afro-indígenas brasileiras, seguindo sua caminhada no hip hop.
