Home Editorial Especial Mês da Mulher: Nicki Minaj – A Autonomia Criativa e Sexual da Mulher

Especial Mês da Mulher: Nicki Minaj – A Autonomia Criativa e Sexual da Mulher

por Arthur Venturi Vasen

Bom, o título é polêmico, eu sei. Um homem falar sobre a criatividade e a sexualidade de uma mulher pode ser algo perigoso, especialmente porquê o homem não sabe o que é ser mulher e, muitas vezes, fala sobre isso de uma forma bastante moralista e ofensiva. Então, seguindo os conselhos de várias amigas feministas, vou falar sobre esses temas a partir da própria personalidade que nós estamos aqui homenageando no mês das mulheres.

E falar sobre Nicki Minaj é falar de polêmicas, de brigas, de glamour, de independência, de criatividade, de luta a favor das mulheres, de luta contra o racismo e de sexualidade. Nada disso passa batido nas letras, nos vídeos, nas falas, nos shows e na vida pessoal da rapper.

NickiMinaj_2016_MesdaMulher_01Onika Tanya Maraj, mais conhecida como Nicki Minaj, nasceu em 1982 na cidade de Saint James em Trinidad e Tobago. Robert Maraj, pai de Nicki, era cantor gospel e auxiliar executivo no setor financeiro de uma empresa. Carol Maraj, mãe de Nicki, trabalhava no setor de folhas de pagamento e contabilidade de outra empresa.

Ainda que tivesse algum dinheiro, sua infância foi bem difícil: Robert bebia muito e usava outras drogas, que o deixavam com um temperamento agressivo até que certa vez colocou fogo na casa em que sua família morava. Com cinco anos, Nicki foi morar em South Jamaica, uma parte do bairro do Queens, em Nova York, que abriga muitos imigrantes de países latino-americanos.

Na adolescência, Minaj foi estudar em uma escola de Manhattan onde o foco eram artes visuais e performáticas. Chegou a participar de um musical fora do circuito da Broadway, mas sua carreira não decolou. Trabalhou em algumas lanchonetes, mas foi demitida por ser pouco atenciosa com os clientes. Foi no rap que Nicki encontrou seu caminho!
Nicki ficou famosa em 2009, após ter lançado três mixtapes, quando assinou contrato com o selo musical Young Money Enterteinment, fundado pelo rapper Lil Wayne. E não só famosa, Nicki Minaj abriu caminhos sendo a primeira rapper mulher em carreira solo a ter 7 singles simultâneos na lista das 100 melhores da Billboard. Como se ainda fosse pouco, Nicki foi nomeada para 10 prêmios do Grammy, ganhou 6 AMAs (algo como Premiação da Música Americana), ganhou em 3 categorias da MTV Video Music Awards, 4 Billboard Music Awards e recebeu o prêmio de Talentos Promissores pela Billboard em 2011. E o mais surpreendente disso: Nicki emplacou 23 músicas em apenas 6 anos de carreira oficial (ou 9 anos, considerando quando realmente começou a gravar).

Confira abaixo a Playlist com vários singles que Nicki Minaj emplacou ao longo de sua carreira.

1 – A Carreira Musical de Nicki Minaj

Até 2010, Nicky lançou três mixtapes: “Playtime is Over”, “Sucka Free”“Beam Me Up”.

NickiMinaj_2016_MesdaMulher_02Em 1 de Junho de 2010, após Lil Wayne ter ajudado Nicki a participar de músicas de outros rappers da Young Money Entertainment, a rapper lançou o single “Your Love” que alcançou a posição #14 da Billboard: bem alta para um primeiro single. Em Agosto, Nicky Minaj liberou o álbum “Pink Friday” (algo como Sexta-Feira Rosa), explicando que deu esse nome porque dali alguns meses aconteceria a “Black Friday” nos EUA, um dia onde grande parte das lojas tem uma redução no preço dos produtos.

Na sequencia a rapper já lançou mais 7 singles! A partir de Setembro de 2010 o mundo ouviu músicas como “Check It Out” (com participação de Will.I.Am), “Right Thru Me”, “Did It on’Em” e “Girls Fall Like Dominoes”. Até então, nós latino-americanos ainda não conhecíamos Nicki Minaj até que ela lançou os 3 superhits: “Moment For Life” (com participação de Drake), “Superbass” (que alcançou a posição #3 da Billboard) e “Fly” (com participação de Rihanna), que tocaram nas rádios durante muito tempo. E ainda bem!

NickiMinaj_2016_MesdaMulher_03Até Agosto de 2011, Nicki estava lançando singles de seu último álbum. Em Abril de 2012, a rapper lançou o “Pink Friday: Romam Reloaded”, uma continuação de seu álbum anterior onde queria músicas mais divertidas. O álbum é dividido basicamente em duas partes: a primeira mais swag e a segunda mais dançante. Para quem é fã da rapper, as duas são ótimas!

Da primeira parte, Nicki emplacou o som de “Beez in the Trap” (com participação de 2Chainz). Da segunda parte, a rapper teve grande sucesso com as músicas “Right By My Side” (com Chris Brown), “Pound The Alarm”“Va Va Voom” e a superprodução de “Starships” (que alcançou a posição #5 na Billboard). O álbum ainda conta com participações de Cam’Ron, Rick Ross, Lil Wayne, Nas, Young Jeezy, Bobby V, entre outros.

O álbum fez tanto sucesso nas vendas que Nicki Minaj fez uma edição Deluxe do álbum acrescentando, entre outras, a faixa “Turn me On”, que está originalmente no álbum do dj David Guetta“Nothing But The Beat”, que também alcançou a Billboard.

NickiMinaj_2016_MesdaMulher_04Mas Minaj ainda não estava satisfeita com o seu trabalho. Ainda em Novembro de 2012 lançou o álbum “Pink Friday: Roman Realoaded – The Re-Up”, onde estava o álbum “Pink Friday: Roman Reloaded” na versão Deluxe, um DVD com a apresentação das músicas do álbum e um terceiro CD com 8 novas músicas, com participações de peso como TygaLil WayneCiaraCassie. A quarta faixa desse álbum, “Highschool” alcançou a posição #64 da Billboard.

Um fato interessante sobre a rapper, de acordo com uma entrevista dela que nós lançamos aqui no ZonaSuburbana semana passada, é que ela gosta de se dedicar de corpo e alma para os seus projetos musicais, dizendo que ela gosta de passar um sentimento em cada álbum que escreve. E em seu próximo projeto, “The Pinkprint”, lançado em dezembro de 2014, disse que queria voltar para o Hip Hop, que seu seu último álbum teve uma pegada pop, que achou interessante de explorar na época, mas que sua raíz mesmo está no Hip Hop.

NickiMinaj_2016_MesdaMulher_05E foi um sucesso, de fato. “The Pinkprint” é um álbum bem mais maduro e, com as parcerias que teve, não poderia seri diferente. Apoiada por pessoas como Chris BrownJeremihMeek Mill, Drake, Lil WayneAriana GrandeSkylar GreyBeyoncé, o álbum emplacou 8 hits nas paradas da Billboard“Pills n Potions”“Bed of Lies”, “Truffle Butter”, “The Night Is Still Young”, “Trini Dem Girls” e, essas sim mais conhecidas por nós latino-americanos, “Anaconda”, “Only” “Feeling Myself”.

Bom, o que podemos esperar de Nicki Minaj este ano? De acordo com a rapper, ela vai se dedicar a sua carreira de atriz. Ela disse que está canalizando suas energias nesse projeto que é seu sonho desde adolescente. Tem escrito alguns pedaços de letras, mas vai pegar mais pesado no projeto do próximo álbum talvez no final de 2017. Até lá, podemos apenas acompanhar suas atuações e esperar algumas participações da rapper em algumas músicas

2 – O que a Nicki Minaj nos ajuda a pensar?

Voltando ao título da matéria: por quê autonomia criativa? Por que é muito comum que um rapper com status e visibilidade tenha, em geral, um grande time de produção musical por trás de seu sucesso. E são pessoas que ajudam o rapper a focar em seu trabalho enquanto eles cuidam de detalhes que são importantes, mas que o rapper nem sempre sabe como fazer sozinho ou, para cumprir um certo prazo para seguir o contrato com sua gravadora, não tem tempo para fazer. E isso não é incomum. O problema é que alguns produtores acabam escrevendo as letras que os rappers vão cantar e, com isso, o rapper ganha destaque apenas pela interpretação que faz da música e não pela sua criatividade. E, considerando que o rap nasceu como uma forma de cada um poder expressar o que sente através das letras, dentro de cada batida, esse tipo de atitude é mal vista pela comunidade Hip Hop. E, ainda mais considerando que estamos no mês da mulher, é importante lembrar que a maioria dos produtores musicais são homens e, escrevendo letras para mulheres, é uma forma delas deixarem de dizer, por elas mesmas, suas experiências sobre serem mulheres.

E qual o papel da Nicki Minaj nisso? Em mais de uma situação Nicki disse o quanto acha importante que todas as mulheres do rap escrevam suas próprias músicas, porque ninguém, além delas próprias, teria como falar da vivência delas sem estarem na pele delas. No incidente com Iggy Azalea em 2014 Nicki elogiou Iggy por escrever suas próprias músicas. Na disputa entre seu namorado Meek Mill e seu amigo Drake sobre a questão dos “escritores fantasmas” Nicki disse que não roubava os raps de ninguém porque ninguém tinha o seu coração, sua mente ou o seu intelecto, e porque ninguém nem consegue cantar os seus próprios raps. Enfim, Nicki até recebe ajuda para escrever partes de algumas de suas músicas, mas a sua caneta está em todas elas.

Algumas frases de Nicki sobre esse tema são de arrepiar, como “Quando eu ganho e quando eu perco, eu que sou responsável por isso!”, “Eu quero ser vista como uma mulher de negócios que trabalha muito e que realmente se orgulha por escrever e por rimar”, “Eu conquistei algumas coisas na vida e eu não vou ficar envergonhada de me sentir feliz pelo que eu fiz”, “Eu apenas quero que as mulheres se sintam sempre no controle. Porque nós somos capazes.”, “Como mulher que está na indústria musical, você tem que se esforçar muito para continuar forte e não baixar a guarda”.

Sobre a autonomia sexual que a rapper fala em muitas de suas letras, é importante dizer que ainda vivemos em uma sociedade sexista onde, entre outras coisas,  o homem pode se sentir livre para experimentar o seu corpo mas, caso a mulher faça o mesmo, ela é considerada vadia, prostituta ou, em situações que são tristes mas são frequentes, são abusadas por estarem vestindo um determinado tipo de roupa. Isso tudo mostra, de acordo com algumas feministas, que o corpo e a sexualidade da mulher são objetos de consumo do homem, que as mulheres não podem se experimentar por si mesmas, sem depender de um homem para isso.

E, nesse sentido, Nicki Minaj sente esse tipo de pressão machista sem, por conta disso, deixar de curtir e explorar a sua sexualidade. Ao longo de sua história de vida, Nicki foi objeto de vários comentaristas sobre as roupas que veste (geralmente curtas) e foi chamada de vadia, foi alvo de discussões sobre se sua bunda e seus peitos são “de verdade” ou se a rapper colocou silicone, foi chamada também de vadia por ter vários amigos homens dentro do rap, mas nada disso a abalou a ponto dela deixar de fazer o que sente vontade quando tem vontade.

Nicki Minaj especial mulherEntre as frases mais inspiradores de Nicki, estão: “Existem coisas que eu faço sexualmente que não são para os homens”, “Se você fala por você mesma, você é considerada vadia. Se você vai a muitas festas, você é considerada uma puta. Mas os homens nunca são chamados dessas coisas…”, “O que você deve fazer se tiver um bundão? Remexer. Quem liga?”, “Se você é sexy ou se gosta de fazer coisas sexys, algumas pessoas inconscientemente vão negar que você tenha um cérebro. Eles acham que você é estúpida!”, “Essas pessoas deveriam se envergonhar por reclamarem de ‘Anaconda’ e não reclamarem do restante da nossa área de trabalho onde a mulher é supersexualizada”. Inclusive na música “Feeling Myself” (algo como Aproveitando-se), que conta com a participação de BeyoncéNicki Minaj fala abertamente que se masturba. E, no rap, e na cultura em que vivemos, é muito comum esperar que os homens se masturbem e, ao mesmo tempo, são mal vistas as mulheres que se masturbam.

Então, se podemos aprender pelo menos duas coisas com Nicki Minaj é que as mulheres podem chegar até onde elas quiserem e curtirem sua vida e sua sexualidade o quanto bem entenderem!

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