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É preciso lembrar: rep é música de preto

por ZonaSuburbana

– Escrito por Mau du Carta

A cena de rap tá cheia de rixas entre os MCs, mas este texto vai na contramão dos ataques individuais que infantilizam discussões sérias através da marra gratuita ou até mesmo da falaciosa idéia de neutralidade que ignora as desigualdades existentes dentro do hip hop. É claro que é fundamental pensarmos em união, mas falar de união, passando por cima das diferenças, muitas vezes é assumir o lugar autoritário do silenciamento e não da humildade da escuta.

Partindo da máxima do mestre Sabota de que “rap é compromisso”, minha proposta é manter o respeito com os trabalhadores da cultura e questionar sobretudo os discursos que vem sendo colocados, partindo do princípio que a cultura é uma batalha de idéias e os significados tão em constante disputa. Nesse sentido, parto da noção que enquanto MC tamo o tempo inteiro assumindo posições em nossas narrativas.

Mau du Carta

Mau du Carta (foto arquivo pessoal)

Eu, agora, falo do meu próprio verbo assumindo minha posição no debate que vem acontecendo, sem querer dar aula nem nada, afinal me considero aprendiz da cultura, com poucos anos de trajetória na função MC. Mestre cerimônia é uma galera de longa data no rolé da rua: Dom Negrone, Renata Da Conceição, Aori, Fábio Emecê, Mv Hemp, Dropê Ejc (Comando Selva), Rico Neurotico (Comando Selva), Repper Fiell, Slow da BF, Dudu de Morro Agudo e Pevirguladez, entre muitos outros que vejo ou vi movimentar a cena do Rio há anos no suor e na correria, e que acumulo admirações pelas suas trajetórias de luta e colaboração. Deixando claro também que não vejo ninguém como dono da verdade, afinal quem bota a cara, erra e acerta, e que apenas quero compartilhar minha reflexão enquanto MC e pesquisador do hip hop.

Hoje, vejo o rap de duas formas: como cultura de rua e como cultura de mídia. Ao mesmo tempo que envolve trabalho (no sentido profissional), produção midiática e luta pela subsistência, envolve política, militância e luta pela voz. A poesia atravessa isso tudo. Se por um lado, ela é cada vez mais praticada pelo viés do consumo e pela lógica do mercado, por outro, ela continua ainda sendo um fazer artístico que escreve a cidade, escreve a si mesmo, produz imaginário e mobiliza a rapaziada a ocupar as ruas. Por mais que em um primeiro momento muitos descubram o hip hop a partir do consumo da indústria norte-americana, quando um MC assume seu lugar de ação dentro da sua esfera local, ele(a) se torna produtor da própria narrativa, descobrindo a partir de seus próprios rolés, pesquisas e reflexões outras referências para narrar seus raps. Dentro deste ponto de vista, o rap se movimenta a partir dos seus usos e das suas múltiplas traduções.

Por exemplo, no livro “Acorda Hip Hop” (2007), Zulu Tr conta como a cultura de MC e as primeiras festas de rua ao ar livre no Bronx, conhecidas como block parties, tiveram origem no processo imigratório de jamaicanos e latinos para Nova York. Dj Kool Herc, um dos principais precursores do que se chamaria hip hop, saiu de Kingston da Jamaica devido a uma forte crise econômica em seu país, trazendo para o subúrbio novaiorquino a cultura dos toasters, que eram os cantadores de improviso na tradição do reggae jamaicano, animadores das festas de rua. Nesse aspecto, o MC dentro da cultura hip hop pode ser lido como tradução do toaster que vem da cultura do reggae e dos soundsystem jamaicanos, mas que foi ganhando seu próprio significado na cultura norte-americana durante o processo de organização e articulação do hip hop.

Outra perspectiva: Dropê Ejc Comando Selva largou outro dia no facebook: “O REP começou no Brasil antes do HIP HOP começar nos EUA”. Dropê questiona a maneira linear de traçar narrativas e de oficializar discursos quando troca a sigla rap pela sigla em português rep, fazendo uma tradução que a olhos distraídos pode parecer boba, mas se nos atentarmos a grafia, percebemos que o MC tá querendo marcar posição ao relacionar o rap ao repente, apresentando uma nova possibilidade de percurso: “O rap, pra mim, veio do repente, que já existia no Brasil antes do hip hop”. Aliás, RAPadura Xique-Chico é um expoente deste olhar, sobretudo quando canta que aqui todos querem ser freestyleiros e poucos querem ser repentistas.

A cultura oral do “passar adiante” também é constantemente acionada no rap pelos mestres da velha escola, como Fábio Emecê (Bandeira Negra) e MC Marechal, assim como pelos militantes do movimento preto que reivindicam a ancestralidade do gênero ao contextualizar o ritmo e poesia como uma continuação das práticas de griot e drum. Portanto, se o rapper ou MC podem ser entendidos como traduções continuadas do toaster (jamaicano), do repentista (brasileiro), escavando com mais profundidade, podem ser interpretados também como figuras herdadas dos grandes contadores de história da África do século XIX.

Ou seja, o que eu estou tentando adensar aqui é: há mais de um caminho possível para se pensar a idéia de origem do rap, mas se pensarmos nestas narrativas articuladas a uma memória, todas são atravessadas pela diáspora africana e reconhecer isto é fundamental para não compactuar com a estrutura racista midiática que invisibiliza o negro quando transforma a cultura de rua em uma cultura de mídia.

Escrevo isso como um MC de pele clara que também pensa o rap como uma ferramenta de questionamento e enfrentamento da própria branquitude. Mais do que pagar de Vinicius de Moraes se colocando como “o branco de alma preta”, acredito que o passo inicial é reconhecer as desigualdades e encarar o debate do conflito racial que tá sobreposto na cena com mais seriedade e menos polêmica. Lembrando Antiéticos, a “cultura é nossa mãe”, e complementando com os versos de Nyl de Sousa, “não dá pra acreditar em projeto de mudança que não tenha gente preta na porra da liderança”. Precisamos de menos “rappers lords” e mais de MCS que dêem continuidade a história de lutas do rap nacional. Busquemos nossa raíz, como diria Thiago Elniño.

Mau du Carta é MC e compositor do grupo de rep Carta na Manga e pesquisador do Programa Cultura e Territorialidade (PPCULT).

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