A Marcha das Mulheres Negras 2025, maior movimento político do continente, lançou o videoclipe em inteligência artificial de “Mete Marcha Negona”, jingle oficial desta edição. O vídeo apresenta mulheres negras de todas as idades em diversos contextos profissionais, todas desfrutando do Bem Viver: ocupando cargos de poder, estudando, sendo cuidadas, envelhecendo com dignidade, com trabalho reconhecido, lazer — e dinheiro. A produção digital reforça o tema deste ano e projeta os lugares que as mulheres negras exigem ocupar.
Entretanto, alcançar o Bem Viver só é possível quando Estado e sociedade reconhecem e pagam a dívida histórica, política e econômica com a população negra, especialmente com as mulheres negras. A Reparação, portanto, se torna fundamento para uma vida plena e justa.
Para a escritora e filósofa brasileira Sueli Carneiro, todas as políticas públicas voltadas às mulheres negras, até agora, foram apenas “espelhinhos”. Metáfora que ela usa para afirmar que nada produziu uma transformação real; tudo permanece como reflexo do racismo estrutural. Exceções, segundo ela, são as cotas e o Bolsa Família, por alcançarem de fato essa população.
O termo metafórico foi mencionado durante uma entrevista exclusiva concedida a jornalista Mari Magalhães e outras comunicadoras de direitos humanos que vieram cobrir a Marcha 2025 a convite do Fundo Baobá Para Equidade Racial. Durante o diálogo bastante franco, Sueli Carneiro defendeu um projeto concreto de Reparação Econômica que ela chama de “círculo virtuoso de promoção da prosperidade coletiva”. A intelectual reivindica ainda uma agenda de promoção da igualdade racial que tire o povo negro da lógica de políticas precárias.
“Chega de espelhinho! Sair da aceitação de políticas de precariedade e reivindicar políticas de prosperidade. É esse paradigma que a gente tem que ousar desafiar. E é por isso que temos que lutar. A gente pode muito mais, para além das cotas. E eu acho que a gente tem que aprender a exigir para que alavanque um processo consistente de desenvolvimento para o nosso povo. O Brasil sabe fazer isso, foi exatamente o que fizeram com os imigrantes brancos europeus. Não só fez, como foi muito bem sucedido. Chegaram aqui no sem-eira-nem-beira, com o apoio do Estado Brasileiro, usufruindo de tudo aquilo que nos foi negado, e que permitiu o desenvolvimento coletivo deles. Tanto é que a hegemonia brasileira é branca, descendente de europeu”, critica a intelectual Sueli Carneiro.
Vale destacar que o racismo estrutural mantém mulheres negras nos menores salários do país, apesar de serem maioria entre as chefes de família e seguirem sub-representadas na política e no setor corporativo. Soma-se a isso o fato de serem as principais vítimas de feminicídio no Brasil.
Filantropia e Raça
As organizações negras no Brasil desempenham um papel essencial no fortalecimento da democracia, engajando politicamente a população negra e atuando em territórios periféricos, quilombolas e tradicionais. Mas, paradoxalmente, seguem à margem dos recursos financeiros necessários para exercer plenamente suas funções.
O novo “Diagnóstico acerca de Filantropia e Raça: Do centro das lutas às margens dos recursos”, lançado em 2025 pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra, traz dados que evidenciam as barreiras enfrentadas. A pesquisa mostra que lideranças das organizações negras são majoritariamente compostas por mulheres cis (89,2%), e em sua maioria, mães (82,7%) — um dado que revela a necessidade de conciliar militância, responsabilidades familiares e trabalho remunerado. Trata-se, portanto, de lideranças que carregam múltiplas jornadas, mesmo dentro de estruturas já marcadas pela escassez.
Além disso, as organizações enfrentam inúmeros desafios de gestão, sendo a captação de recursos o mais citado (89,1%), devido à dificuldade de acesso a financiamentos e à complexidade dos editais e da documentação exigida. A escrita de projetos aparece como outro grande obstáculo, apontado por 56,5% das organizações, seguida pela falta de planejamento estratégico (48,3%) e pela dificuldade em mapear editais relevantes (47,8%).
A barreira linguística também aparece: 33,9% das organizações relatam dificuldades com idiomas estrangeiros, o que limita o acesso a financiadores internacionais e oportunidades globais. Esse contexto reflete as barreiras sistêmicas de racismo e sexismo que restringem o acesso ao financiamento, reforçando a necessidade de um ambiente mais inclusivo e equitativo no setor filantrópico brasileiro.
Embora existam editais e leis de incentivo destinados a organizações negras e periféricas, a filantropia no Brasil se demonstra ainda insuficiente para promover mudanças estruturais no enfrentamento das desigualdades raciais. Em vez de atuar como instrumento de transformação, muitas vezes reproduz o racismo sistêmico — ou, como disse Sueli Carneiro, oferece apenas “espelhinhos”.

O Diagnóstico aponta ainda que a região Centro-Oeste têm menor presença de organizações negras, representando somente 7%. Entre elas está o Grupo de Mulheres Negras Malunga, de Goiás, que completou 26 anos de trajetória atuando em territórios quilombolas, periferias, comunidades em desafios sociais com elevados níveis de violência. Apesar dessa relevante atuação pelos direitos humanos e justiça social, e ser uma das mais antigas instituições de mulheres negras do Brasil – reconhecida inclusive pela própria Sueli Carneiro – ainda assim não alcança uma equidade de recursos.
A ativista e liderança negra Sônia Cleide, fundadora do Malunga, denuncia a lógica desigual dos fundos voltados às mulheres negras. De acordo com ela, a maioria trata organizações de mulheres negras como se tivessem estruturas já consolidadas, quando na verdade enfrentam carências básicas.
“Infelizmente, ainda os financiadores pensam que todo movimento de mulheres negras já está em um patamar elevado de organização. Na verdade não está ainda. As mulheres trabalham como escravas, têm que dar assessoria, executar o projeto com rigor, enquanto lida com o sofrimento e escassez na vida de outras mulheres. A militância é desigual. Tem instituições com muito dinheiro e que não faz trabalho de base, como o Malunga. A gente está neste momento, de que parece ter avançado em políticas públicas, mas a população negra não avançou. A violência ela é tão cruel com a gente que até os financiamentos são violentos”, comenta a líder do Malunga.
Sônia defende modelos de financiamento de longo prazo para garantir sustentabilidade e avaliar impactos reais. Para ela, também falta escuta ativa por parte dos financiadores, pois os editais nem sempre correspondem às necessidades reais dos territórios.
“A gente tem que ter um trabalho de fortalecimento da comunidade e esses financiamentos e editais não vêm para fortalecer. O fortalecimento passa pela autonomia, passa pelas próprias lideranças”, critica a ativista goiana. Ainda que direcionados à pauta racial, os mecanismos de filantropia não têm alcançado a emancipação das mulheres negras nem o fortalecimento duradouro de seus grupos.
Manifesto Por Reparação e Bem Viver

A Marcha das Mulheres Negras deste ano traz um Manifesto que busca mostrar concretamente como fazer justiça econômica. O documento aponta 7 eixos pensados por elas para mudar essa realidade: Reparação Econômica, Trabalho e Renda, Política Macroeconômica, Dignidade, Investimento Público, Investimento Privado e Economia Internacional. E para que essas políticas públicas saiam do papel, o movimento vai entregar o documento no Ministério da Fazenda e iniciar uma articulação intercontinental.
O Manifesto lembra que, por quase 400 anos, o sistema econômico brasileiro se sustentou na escravidão e que o pós-abolição não trouxe políticas de amparo. Assim, a Reparação — eixo central da Marcha Global das Mulheres Negras — é entendida como implementação de ações simbólicas, políticas e materiais para enfrentar desigualdades que seguem vivas na colonialidade atual.
A redistribuição de riquezas, a compensação por injustiças estruturais e o direito à vida com liberdade, educação, seguridade social, justiça racial, cultura, memória e território são elementos fundamentais dessa agenda.
A reparação é um passo essencial para que o bem-viver seja uma realidade para as mulheres negras. Mas não neste mesmo caminho em que opera. É preciso ousar exigir, como disse Sueli Carneiro, por um processo virtuoso de prosperidade, ainda que pareça utopia, para que um vídeo institucional em IA, como o da Marcha, não seja meramente ilustrativo.
