Home Entrevistas Cauã Sanfer conta sua trajetória no rap e pede para MCs aceitaram novas tendências em entrevista exclusiva

Cauã Sanfer conta sua trajetória no rap e pede para MCs aceitaram novas tendências em entrevista exclusiva

por Arthur Venturi Vasen

Cauã Sanfer é um rapper do Grajaú, zona sul de São Paulo, que cada vez mais tem ganhado destaque no rap por meio de músicas que buscam inovar tanto na letra quanto na batida. O rapper já lançou a mixtape “Sonho de Um Poeta Periférico” e vários singles e clipes, incluindo “Vácuo”, “Me Faz Flutuar” e “Sexta como le gusta”.

Em entrevista exclusiva para o ZonaSuburbanaCauã falou sobre como começou a produzir rap e como é o seu processo de criação além de mostrar suas opiniões a respeito do cenário rap nacional, pedindo para que outros MCs e o público no geral aceitarem as novas tendências que estão surgindo.

ZonaSuburbana: Como foi o seu percurso no Rap? Como você entrou em contato com o estilo? Como foi a decisão de começar a produzir Rap?
Cauã: Temos que voltar lá atrás. Desde que me entendo por gente e aprendi a escrever tenho o hábito de escrever livretes, poesias, contos etc. Comecei a ouvir rap através de um primo que veio morar em casa e as batidas pesadas e funkeadas do “Holocausto Urbano” me fizeram olhar para o rap e querer conhecer mais.

Claro que, durante anos, era apenas um fã do gênero. Em 2001 comecei a estudar música e fui passando por diversas experiências, me apaixonando pela música negra em geral (desde o Jazz até o R&B) e em 2010 me veio a ideia de musicar algumas poesias: ai nascia a ideia do “Sonho De Um Poeta Periférico” que levou um tempo até começar a ser produzido mesmo, em 2015. Grande parte desse tempo eu estava tocando em orquestras e fazendo musicais, mas sempre com o olhar pra o rap como algo que iria fazer em algum momento. Eram viscerais a vontade e o amor por isso.

ZonaSuburbana: E como era esse curso de música que vocês fez?
Cauã: Iniciei meus estudos musicais num projeto chamado Acordes no CEU estudando violoncelo. Depois disso fui estudar no Instituto Pão de Açúcar, depois Conservatório Villa Lobos, após isso na Faculdade do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e por fim na USP.

Entre todos esses locais que estudei, tinha sempre o lado popular em volta. Então aprendi violão através da mpb, guitarra através de Michael Jackson… Como disse, sempre tive o amor pela música dita popular e música erudita.

ZonaSuburbana: Como você entende que essa formação em música erudita e sua paixão simultânea pela música popular influenciam a forma com que você produz rap hoje? Que divergências e semelhanças você vê entre o seu trabalho e o de outros rappers da cena?
Cauã: É bem louco falar disso porque na maior parte do tempo estou produzindo sem pensar que estou fazendo rap. Eu penso na grandiosidade da música e ai na sequência na grandiosidade da arte e fico maluco. Não consigo pensar em rap sem pensar que é música e consequentemente arte.

O rap é o gênero mais ouvido no mundo e amo isso: mas é um continente dentro de um planeta chamado música que está dentro de uma galáxia chamada arte. Quanto aos MCs da cena, é difícil dizer sobre divergências quando eu não as vejo, saca?

Normalmente foco nas semelhanças, que é algo natural partindo do princípio que muitas vezes temos algumas referências em comum, me entende? Vejo que as vezes eu viajo um pouco também, justamente por não pensar como produzir um bom rap e sim produzir uma boa música. E ai vejo que estou um pouco distante do que está rolando forte na cena, o que pra mim não é um problema até então.

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ZonaSuburbana: Como é o seu processo de criação musical? E quais são as principais mensagens que você quer passar para os seus fãs e para quem escuta o seu som?
Cauã: Não tenho muitos caguetes na hora de criar, mas indiferente se escrevo com um beat pronto ou se escrevo sem eu sempre pego o violão. Todos os meus sons, até os boom baps mais pesados, têm sua versão pra voz e violão.

Acredito que até aqui a mensagem que mais compartilhei com meus fãs é a do amor a arte, orgulho de onde vem, acreditar em seus sonhos. Mesmo quando tu sai do Grajaú sem perspectiva nenhuma e com tudo contra, tu chega aos 26 anos olha pra tudo que conquistou, conhecimento que adquiriu e fala “porra, é possível”.

Aí a vontade é de gritar pra todos sobre isso. Sobretudo, escrevo sobre não ser engessado, sobre pensar além do habitual.

ZonaSuburbana: O que seria esse “pensar além do habitual”?
Cauã: Acompanha comigo: desde que o mundo é mundo, grandes problemas vem quando as pessoas se deparam com algo novo. Foi assim quando os europeus chegaram a África negra e decidiram que aquelas pessoas, por serem diferentes, seriam escravizadas.

Foi assim quando se iniciou o blues e o rock na América do Norte e a burguesia cristã não aceitava aquela música que instigava os jovens ao mal. Foi assim com o discurso de Brecht no início. Foi assim quando o rap surgiu lá e aqui. Foi assim com o funk, axé e outros.

E temos por cultura esse defeito de denegrir o novo e ser fechado. Eu quero ver todo mundo aberto ao novo: não que tenham que gostar de tudo que é novo, mas respeitar e aceitar que o mundo é líquido e, sendo assim, está em processo de metamorfose. Infelizmente no rap temos muitas regras sobre o que é o que não é, como deveria ser, como foi e deixou de ser: enfim, esquecemos de unir forças como nossos antepassados uniam pra se salvar dos senhores de escravos.

Eles não pensavam em como o colega deixou de lado a cultura de onde vieram: só pensavam em se salvar e mudar o quadro. Claro que nem todos tinham isso, mas vejo esses que tinham essa vontade, como nós MC’s, e se não nos ligarmos que estamos sendo escravizados por nossos próprios padrões ficaremos sempre assim julgando mais que curtindo, brigando mais que zuando junto, e é isso.

ZonaSuburbana: Na sua opinião, quais são os principais pontos de desunião dentro do rap? E, para você, quais são as causas disso?
Cauã: O eixo central de tudo isso é de fato o que chamo de mente engessada: a ideia de ter uma receita única pra produzir rap e essa é a causa disso. Quando temos um MC que está rimando sobre causas sociais como nos anos 1990, ok. Mas se esse MC rima sobre um role insano que ele fez, está deixando de ser o rap. Esso é a questão: o rap ao meu entendimento é ritmo e poesia e a subjetividade de ambos é evidente. Não temos como determinar como se deve fazer.

ZonaSuburbana: Com o crescimento da cena, mais e mais pessoas tem começado a produzir rap. As mulheres, que sempre fizeram parte, ganha cada vez mais repercussão na cena. A galera LGBT tem começado a se aproximar do rap aos poucos. A população negra, que criou o rap, tem começado a questionar o fato de, em muitas situações, os negros do rap serem menos valorizados que os brancos do rap. E muitos rappers do nordeste tem começado a questionar a valorização apenas da produção do sudeste em detrimento da produção nordestina. Como você enxerga essas novas pautas que tem surgido dentro do Rap?
Cauã: Sobre mais pessoas produzindo, acho que é isso tem que acontecer mesmo, quanto mais melhor, sobre as minas e a galera LGBT tem que chegar junto mesmo. Sobre a questão de MCs brancos terem mais visibilidade do que MCs negros é um triste fato, é real, é uma herança que nos assola.

Agora, não acredito que a culpa seja do MC que é branco e sim de um público e mídias que os escolhem. É tenso falar sobre isso porque a primeira coisa que se fala é “ele tem talento”, mas sabemos que alguns talentos são o dinheiro (risos).

E ai que tá: essa galera que investe ainda tem a ideia de investir também na imagem que, segundo eles, vende. Não entendo a lógica nem me aprofundo muito nesse tema porque, como disse antes, foco no que é bom.

* Foto de capa por William Gomes.

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