No dia 7 de julho, celebra-se em São Paulo o Dia Estadual do Funk, data instituída em homenagem a MC Daleste com o intuito de reconhecer o funk como uma manifestação cultural legítima. Ainda que a comemoração seja pouco divulgada, sua importância extrapola os limites geográficos e institui uma oportunidade concreta de escuta para vozes que historicamente foram silenciadas. Mais do que celebrar um gênero musical, a data pode reacender debates sobre a legitimidade das linguagens periféricas e, sobretudo, das formas de saber que emergem dos territórios favelados.
A prisão recente do artista MC Poze do Rodo e os comentários públicos de Oruam nas redes sociais colocaram essa questão em evidência. Ao perguntar “Se eu falar sem gíria, será que vocês me entendem?”, Oruam não apenas nomeia a tensão entre norma e variação, mas explicita os limites da escuta pública no Brasil e denuncia a seletividade de um regime linguístico sustentado por relações raciais e de classe.

Essa pergunta, ainda que aparentemente simples, aponta para algo fundamental: a gíria não é um ruído a ser corrigido, mas uma linguagem legítima, carregada de sentidos, memória, história e invenção. Não se trata de uma oposição à educação formal ou de um suposto desprezo pelo saber escolar, como frequentemente se insinua, mas sim da recusa a um modelo único de linguagem que, por meio de critérios arbitrários, exclui formas legítimas de existência. A gíria não é uma falha. É uma forma de pensar o mundo e de inscrevê-lo na linguagem. É, portanto, epistemologia em ação.
O que está em jogo não é o acesso à escola, mas o direito de falar e ser escutado sem precisar abandonar sua própria voz. O racismo linguístico (NASCIMENTO, 2019), nesse sentido, não opera apenas no conteúdo, mas na forma: exige que o sujeito periférico modifique seu modo de falar para ser considerado digno de atenção, reconhecimento e humanidade. Como argumenta Fanon (2008), no contexto colonial, o negro só era percebido como racional ou civilizado quando imitava a língua do colonizador. Essa exigência persiste no presente: os sujeitos racializados ainda são convocados a se corrigir para poder existir simbolicamente. O processo de deslegitimação da gíria é, portanto, também um processo de apagamento da história de seus falantes.
A gíria, entretanto, resiste. Circula nas músicas, nos becos e vielas, nas redes sociais, nas rodas de conversa. Constrói vínculos, ativa memórias, reinscreve identidades. Ela não é um desvio da norma, é uma outra norma, forjada nas dinâmicas coletivas das periferias, que cria gramáticas próprias e articula sentidos desde as margens. Como observa Souza (2011), a linguagem é um lugar de microrresistência cotidiana: gírias, falas desviantes e performances linguísticas periféricas desestabilizam os sentidos cristalizados do que é educado, compreensível ou legítimo. Recusar-se a abandonar os próprios modos de dizer é disputar a linguagem como território simbólico, afirmando que também ali se produz conhecimento.
A fala de Oruam, nesse contexto, não é apenas um gesto individual. Ela rememora uma longa tradição de contestação e reinvenção linguística por parte de sujeitos historicamente excluídos. Sua pergunta interroga diretamente o pacto de exclusão que estrutura a escuta dominante: por que certos modos de falar são automaticamente associados à ignorância, à informalidade ou à violência? E mais: por que ainda se insiste em associar a gíria a uma ameaça à educação, quando o que falta é justamente reconhecer que há múltiplas formas de saber e ensinar? A fala (AS CULTURAS) favelada incomoda não porque seja ininteligível, mas porque ela carrega história. E é essa história que a escuta institucionalizada tenta apagar.
Como propõe Bhabha (1998, p. 27), o passado-presente não deve ser mobilizado pela nostalgia, mas pela necessidade de viver: de continuar existindo apesar da violência, de reinventar-se em meio à ausência, de ocupar o tempo com outras gramáticas e outros sentidos. A gíria atualiza esse princípio: ela organiza a memória viva dos que foram silenciados, e o faz por meio da linguagem. Ao circular entre corpos, coletividades e práticas culturais, ela funciona como um arquivo em movimento, um espaço em que os sentidos do mundo não apenas são transmitidos, mas reinventados. Nesse sentido, como observa Assmann (2008), a memória cultural se mantém viva não pela repetição mecânica, mas pela atualização criativa. A gíria atualiza, reinventa, restitui presença.
Não é exagero afirmar que o que se chama de “erro” é, muitas vezes, a recusa do que escapa ao padrão racializado e classista de língua. O incômodo diante da cultura periférica não diz respeito à elucidação da comunicação, mas à ameaça que ela representa a uma ordem discursiva que naturaliza a exclusão. E, pesando na gíria, como nos lembrava Gabriel Nascimento (2019), linguicídio, epistemicídio e genocídio caminham juntos: silenciar uma língua é também silenciar um povo, um corpo, uma história.
Valorizar a gíria não é tolerar uma variação linguística. É reconhecer a legitimidade de formas outras de conhecimento, de elaboração simbólica e de existência. A gíria não é ausência de norma, mas presença de outra lógica. Ela articula sujeitos com seus territórios, suas experiências e seus modos de ver o mundo. E, ao ser desautorizada, o que está em disputa não é apenas uma forma de falar, mas o direito de existir. O caso de MC Poze, assim como a pergunta de Oruam, não nos convocam apenas a repensar a linguagem. Eles nos obrigam a reconhecer que há muito tempo, nos becos, vielas e quebradas, a favela vem dizendo o mundo — com outras palavras, outras cadências, outras verdades. Quando a favela fala, ela não imita o centro: ela funda mundos.
Imagem capa: Fernanda Souza (Correrua), 2023.
Referências Bibliográficas:
ASSMANN, Jan. Communicative and cultural memory. In: ERLL, Astrid; NÜNNING, Ansgar (ed.). Cultural memory studies: an international and interdisciplinary handbook. Berlin: Walter de Gruyter, 2008. p. 109-118.
BHABHA, Homi K. O pós-colonial e o pós-moderno: a questão da agência. In: O local da cultura. Tradução de M. Ávila; E. L. L. Reis; G. R. Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EdUFBA, 2008.
NASCIMENTO, Gabriel. Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019.
SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança, hip hop. 1. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
