Superar um clássico não deve ser tarefa fácil. Depois de uma década do visionário álbum “A Cor do Futuro”, o rapper goiano Gasper surpreendeu o público com a apresentação de músicas inéditas durante o Festival RapGround, realizado no último dia 30 de abril no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia. O show gratuito reuniu fãs fiéis e foi marcado por um momento comovente: pela primeira vez, os dois filhos do rapper estavam na plateia assistindo ao pai no palco. Um acontecimento simbólico para a trajetória do artista — e quem sabe um ponto de virada em seu legado, agora também familiar.
Na ocasião, Gasper revelou faixas como “Doce Amargo”, “Compaixão”, “Samba Criminal”, “Não Quero Eu Te Amo por Telefone” e “O Que Será de Nós”, esta última com participação da cantora Afrodite, que já toca na principal rádio de hip hop da capital goiana. As músicas integram um novo projeto fonográfico que está em fase final de produção e ainda sem título definido.

A apresentação marca o retorno de Gasper à cena musical depois de dez anos do álbum “A Cor do Futuro”, seu terceiro disco solo e o último até então. Lançado em junho de 2014, o trabalho contém 16 faixas com forte influência da música popular brasileira — especialmente de Tim Maia — e colaborações de peso como Renan Inquérito (SP), Kamau (SP) e artistas locais como Calango Nego, Ras Tibuia, Flávia Carolina e Wine B.
“A Cor do Futuro” foi apontado pela revista eletrônica Vice News como um dos melhores discos brasileiros de 2014, ao lado de clássicos como “Convoque Seu Buda” (Criolo) e “Cores e Valores” (Racionais MC’s). A faixa “O Meu Talento É Viver”, com produção de Doxsoul, recebeu destaque especial e teve seu videoclipe exibido por meses na TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás.
Mesmo com o passar dos anos, o álbum segue atual em sua proposta estética e política. Gasper já antecipava em suas letras discussões sobre afrofuturismo, protagonismo negro e resistência cultural, temas que se mantêm vivos em sua produção atual. Sua volta aos palcos — com os filhos assistindo pela primeira vez — não é apenas um reencontro com o público, mas também um gesto potente de continuidade, um legado que se transmite também pelo afeto e pela presença.
Com o novo repertório em mãos, Gasper reafirma sua relevância entre os poetas negros da música brasileira, fortalecendo sua trajetória como artista, pai e referência cultural afro-brasileira. Agora é aguardar a chegada deste novo disco, que talvez não precise superar “A Cor do Futuro”, mas sim dialogar com ele, como quem continua a caminhada.
