Home Editorial O Perigo da História Única: Das narrativas clássicas ao Hip Hop, representatividade importa e muito

O Perigo da História Única: Das narrativas clássicas ao Hip Hop, representatividade importa e muito

por Daiane Cezário

“A história única cria estereótipos, e o problema com estereótipos não é que sejam mentiras, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história única tornar-se a única história”. Foi assim, para falar da importância de ver-se representado, que a novelista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fez seu debut no TED Talks, uma organização sem fins lucrativos que abraça o lema ‘ideias que merecem ser compartilhadas, lá em 2009.

chimamanda-ngozi-adichie-2016

Chimamanda Ngozi Adichie

Você deve estar se perguntando como este fato conecta-se com um portal de ressonância da cultura de rua, por si só compreendida como criadora de sua própria representatividade? Não seria o rap em si uma ruptura? Talvez, mas não o é quando alimenta a história única. Que história o rap conta? Falo da ideia estereotipada do rap, aquilo que vem a mente quando se pronuncia o nome. Se rap é compromisso, também é complexidade.

Deveria parecer óbvia a diversidade e extensão do Rap, ao menos diante da abertura cultural e de uma fase tão well-produced do gênero. Mas não foi com esses mesmo olhos (e ouvidos) que alguns receberam o lançamento do álbum “Boogie Naipe”, por Mano Brown, na última sexta-feira (9). Boa parte da crítica fio direcionada a uma suposta mudança de estilo do rapper que dá cara e voz a um dos grupos mais importantes da cena paulista, o Racionais. Isto por que o álbum recebe doses de influência do Funk Clássico e R&B, além de contar a tutela de Leon Ware, parceiro de Marvin Gaye, e de participações especiais como Seu Jorge, Max de Castro, Wilson Simoninha, Heldon e outros, como já noticiado aqui neste canal (clique aqui para acessar a matéria).

Por que será que o Rap, o Hip Hop e toda a relevância da cultura de rua continuam subjugadas à essa narrativa única que só decodifica seu lado historicamente marginalizado? Ao que Adichie responde: “É assim que você cria uma história única. Mostre às pessoas uma única coisa, como sendo uma coisa única, por diversas vezes, é será isto o que a coisa se tornará”, analisa. Quem ja foi confrontado com a afirmação de que aquele(a) que escuta Rap é bandido, marginal, vagabundo e por aí  vai (ladeira abaixo), sabe bem do que estou falando.

O mesmo acontece quando nossas mulheres incríveis tornam-se parte ativa e estruturante desta cultura, quantas histórias únicas tem elas que vencer? Está aí o feminismo de Karol Conka, Flora Mattos, Tássia Reis, Lívia Cruz e tantas tantas outras descendo pela garganta apertada do conservadorismo. Isso sem falar de Rico Dalasam e Mc Luana Hansen, para elencar apenas dois, que levantam a bandeira da ruptura de gênero no rap.

Comece a história contando que o rap emerge nas periferias e não destacando seu poder criativo, estará criado o esteriótipo, a história única. Diga que as letras falam de crimes e não de militância e resistência, e continuaremos alimentando a mesma narrativa incompleta, portanto desonesta, do que é este movimento.

Assista o vídeo abaixo:

Você pode gosta

Deixe um comentário

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e manuseio de seus dados por este site.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por sair, se assim desejar. Continuar Mais informações