Home Editorial O hip hop não é só foda! Ele é PRETO! Gostem ou não

O hip hop não é só foda! Ele é PRETO! Gostem ou não

por ZonaSuburbana

Um conjunto de coisas que eu tenho visto nos últimos meses somado a um comentário fascista que li hoje na live do Estaremos Lá com o Slim Rimografia e Rincon Sapiência me fez escrever isto aqui.

Existem muitos artigos na internet sobre a cultura hip hop, textos e mais textos escurecendo o tema. Ora ou outra revisitamos o debate sobre apropriação cultural e, para aqueles que não se dão ao trabalho de procurar saber o que é, resumem o assunto achando que nós não aceitamos brancos fazendo parte.

Tá tudo errado! Tá errado o conceito, tá errado se apropriar, tá errado achar que é bagunça e, principalmente, tá errado ser racista e apoiar discurso de ódio.

O hip hop não é só foda! Ele é PRETO! Gostem ou não.

Não vim aqui para fazer a wikipreta e contar a história do hip hop e nem a importância dele para a periferia. Está mais que comprovado que ele é uma ferramenta de transformação sócio-cultural e educativa. Está nos espaços de cultura, está nas quebradas e, quando o quadro piora, está nas Fundações Casa. Já fui em algumas, vi de perto o quanto um Racionais ou um Sabotage salva. Desenhos de grafite que são presentes para as mães e, às vezes, é a única forma deles retribuírem o amor que elas dão. Então tá resolvido! Não iremos debater a história do movimento

O que vamos debater é o perigo de permitir que tudo isto se esvazie em nome do hype, do game, dos views e dos stories com tênis de marca, bebidas e drogas. Um esvaziamento eminente e tão certo quanto o rock, jazz e quem sabe da capoeira gospel e gourmet. Enquanto se discute se branco entra ou sai, Fabio Brazza faz um rap do tipo somos todos humanos e diz que é Malcolm X (nem metaforicamente tá querido). O dono de um dos maiores sites de rap nacional, o Rap24 horas (bem ruim, diga-se de passagem) foi exposto por diversas ofensas racistas. De um lado temos Spinardi do Haikaiss de dreads, do outro, Rincon Sapiência sendo atacado após o Festival Batuque, por usar uma saia que para os não entendidos, se trata de uma vestimenta originalmente africana. Apropriação é isto, o uso livre de nossos símbolos e referências por parte de pessoas brancas que possuem o privilégio de não serem atacados.

Uma vergonha atrás da outra e uma sequência de closes errados que lá na ponta vai apagando a essência da cultura. Ou pior (anistia.org.br/imprensa/na-midia/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia).

Mas Nerie, que separatismo é este? Então quer dizer que não pode ter branco no hip hop? Já ouviram falar em Issa Paz, Barbara Sweet, DÖ MC? Deixa eu contar uma curiosidade sobre a Sweet. Ela sempre usou uma faixa na cabeça que parecia bastante com turbante. Um dia, em uma conversa com ela, falamos sobre este assunto. Uma conversa agradável e respeitosa que resultou na não continuação do uso do tal lenço.

Segundo a Sweet, ela apenas não precisava, simples assim. “Preta, eu acho que muito disto tudo é abrir mão e pensar que a gente não vai morrer por não usar um turbante”. E tem a Eveline Sin, uma grafiteira que assinava como Sinhá e, após uma auto reflexão e uma conversa com alguns militantes negros, resolveu mudar o nome por entender que ele carregava uma história de opressão. E o , que eu já vi abrir mão de um cargo na politica por entender que era necessário uma pessoa negra no lugar dele. Entendem? Não é parada de biscoito, é parada de respeito, de abrir mãos dos privilégios, é sobre respeitar a cultura que está e não querer apagar os pilares. Dito tudo isto, apropriação cultural não se resume em “branco sai, preto fica”. É sobre conhecimento (precisamos investir mais neste elemento) e depois sobre respeito. O debate racial dentro do hip hop está uma vergonha, falo do meu lugar de mulher negra, mas gostaria que alguém do movimento LGBTT desse seu ponto de vista sobre a LGBTTfobia também, assunto sério e urgente. Tá demais! Racistas e fãs de Bolsonaro não passaram!

E só pra constar. Como bem disse o Slim Rimografia em “Arte do Gueto”: “O progresso do rap me lembra o congresso. Pouco Preto! E dá pra contar na palma da mão. Dos brancos!” É sobre o rap, mas pode trocar por hip hop.

Você pode gosta

Deixe um comentário

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e manuseio de seus dados por este site.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por sair, se assim desejar. Continuar Mais informações