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Mensagem na Caixa de Entrada: E as minas do hip hop?

por Dj Cortecertu

Recebi em 2006 esta mensagem da minha amiga Shis. A gente conversava muito sobre várias paradas. Na época, resolvi publicar alguns questionamentos dela no Bocada Forte. Foi neste momento que pensei em sempre fazer a série Além de Março, com depoimentos e trampos das mulheres no rap. Vale a pena conferir e pensar no que mudou de lá para cá. Como sempre, tratar de certos assuntos é estar numa Zona Sem Conforto.

De: Shisleni
Data: sábado, 6 de maio de 2006 21:31h.
Para: Cortecertu
Assunto: O Rap e as Meninas

E aí DJ, como vão as coisas? E as meninas?
Negão, tô te escrevendo por causa um pensamento que tem me perseguido nos últimos dias.
Durante uma conversa, esfregaram na minha cara um “até acho legal a iniciativa, mas falta jeito para coisa, né?” Falávamos sobre as meninas que fazem Rap, “Se for B.girl, até vai, tudo bem, dançar é coisa de mulher mesmo…” e continua “A gente dá espaço, mas precisa é de talento…”. Essa conversa ficou como uma pulga atrás da minha orelha, “Que cretino!”, pensei. Mas não disse nada…guardei o comentário pra mim.

Depois disso, ainda achei essa pérola numa revista:
“Ela é perfeita: 82 cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadris. Mais do que medidas de miss, a Globeleza Valéria Valenssa tem um corpo prá lá de escultural. Sua plástica irretocável faz dela um mulherão. De fato, suas belas formas estão muito bem distribuídas em 1,70m de altura e 50 quilos. Graças a esse talento e à sua performance com o samba no pé, Valéria tornou-se símbolo do Carnaval e sinônimo de beleza. Mas como será que essa beldade, que ainda acumula o título de mulher do designer gráfico Hans Donner, se cuida no dia-a-dia?” (Revista Raça Brasil – Ano 3 – no. 21 -pág. 42 – Matéria: Ela é demais)E se ela não fosse uma beldade escultural? O que ia fazer da vida sem este “talento” e o título de esposa?

“Ai da Kelly Key se fosse feia (…) /A mesma chance não teria /Cá ente nós com aquela voz e o corpo cheio de estria” (Corpo Em Evidência – Visão de Rua). Oras! A função da mulher é ser linda e mãe? Deve ser, né? Mesmo a Valéria Valenssa, sinônimo-de-beleza-da-mulher-brasileira-mulata-tipo-exportação, deixou de ser a Globeleza, para ser mãe, sua função máxima enquanto mulher, ou não foi?

Mas e o Hip-Hop? Onde estão as mulheres do hip hop? No backing vocal? Talvez. Nas letras? Sim, são as “Mulheres Vulgares” (Racionais MCs), a “Garota Sem Vergonha-Bitch” (Doctor MCs), o “Sexo Frágil” (Sistema Negro), são as porcarias “De quem é essa mulher?” (Ndee Naldinho), e por aí vai, são sempre as vadias, safadas, aproveitadoras, prontas pra qualquer tipo de crocodilagem.

Quando falam da mina firmeza ou ela é a mãe deles ou é aquela que visitou o cara enquanto ele tava preso, que cuidou dos filhos dele, que trabalhou que nem uma louca e deu aquela força quando ele ficou desempregado. Por que não a respeitam simplesmente por ser uma pessoa? Só é homenageada porque foi útil quando o bagulho pesou. E mesmo estas, são as mesmas que levam várias surras deles, que levaram vários perdidos…Você tá ligado.

Até sei o que você vai me dizer: “É Shis, tem o fulano, o outro fulano e esse fulano aqui que fizeram umas músicas assim e assado”. E eu vou responder “Eu sei Corte, ainda assim, dá pra contar nos dedos… e se vacilar, de uma mão só…”
Pra você não me chamar de injusta, admito que as minas aparecem sempre nos eventos pra prestigiar os parceiros e curtir um som (e, na maioria das vezes, estão em calças-super-justas, saltos-super-altos e decotes-super-profundos, são as gostosas, expostas aos amigos como troféus, símbolos de virilidade. Isso, quando arrumam alguém pra ficar em casa cuidando das crianças. Se não, nem pensar em sair).

Das mulheres se exige a beleza, “intuição feminina” (que, embora eu seja mulher, não tenho a menor idéia do que seja isso), delicadeza, instinto maternal (não só com os pequeninos, mas com todos ao seu redor, principalmente o companheiro), e muita habilidade com os afazeres domésticos…

Só que um dia, umas minas inventaram de fazer música. Aí caiu a casa, Nego! Elas resolveram reclamar do que os caras diziam sobre elas nas músicas, da falta de espaço pra produzir, das surras que levam de seus parceiros (ou das que as suas mães, irmãs, e amigas levam de seus pares), falar da vida e do amor. Os caras se aproximaram, mas apoio dado a elas pelos “manos firmeza”, pelos “cara de milianos”, enfraquece (ou acaba?) quando elas dizem não às suas cantadas ou mesmo quando cedem a elas (pra quê continuar apoiando, já comeu, né?), a partir daí, mano, já era! É claro que tem uns caras firmeza de verdade, que dão a maior força mesmo, mas são tão raros que dá até tristeza…

“Não há credibilidade quando um integrante de um movimento libertário como o Rap faz parte da máquina opressora em vez de denunciá-la” (MC Chris – em entrevista para “O Estado de São Paulo” em 18/02/1994).

Ainda assim, alguns grupos femininos insistem em fazer música de qualidade, mas quantos CDs delas você vê à venda por aí? Mano, é fato! No hip hop falta espaço para as meninas fazerem e serem reconhecidas pelo que produzem, como seres humanos capazes, donas de si e atuantes. Sem a obrigação de serem gostosas, de requebrar ou de sorrir pra todo mundo. E para além das “comemorações” de março.

Falou! Beijo;
Shis

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