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“Gangsta’s Paradise”: como a obra-prima de Coolio marcou história no hip hop

por ZonaSuburbana

Lançada quase 25 anos atrás, a importância de “Gangsta’s Paradise” chega a se perder no tempo. Desde então, a música de Coolio tem sido frequentemente parodiada e ficou fortemente associada aos anos 90 – apesar de, em termos de qualidade, ter sido uma das melhores canções a emergir dessa era específica do rap. Contudo, “Gangsta’s Paradise” marcou uma virada não só para Coolio, mas para o rap como um gênero.

Com um rife poderoso, batida marcante e uma letra instigante que fala sobre redenção, “Gangsta’s Paradise” tornou-se uma das criações mais icônicas do rap. Não só porque vendeu mais de 6 milhões de cópias ao redor do globo, tornando-se um dos singles mais vendidos do gênero, ou porque atingiu o topo as paradas de sucesso nos EUA em 1995, desbancando Michael Jackson. E sim porque ajudou a abrir as portas para a próxima fase do gênero: a união entre rap, hip hop e mainstream – o que finalmente permitiu que chegasse a milhões de fãs mundo afora.

“Gangsta’s Paradise” de Coolio ajudou a alavancar o rap do underground ao mainstream

Um versátil (e controverso) artista

Coolio, cujo nome verdadeiro é Artis Leon Ivey Jr, começou sua carreira na música durante a década de 80 participando de competições de rap e depois como membro de um grupo de rap, chegando posteriormente a lançar um álbum solo no divisor ano de 1994. Mas foi só no ano seguinte, com “Gangsta’s Paradise”, que ele alcançou o sucesso fora do underground. Tanto que a carreira de Coolio como músico de rap permitiu que ele aparecesse em vários filmes e programas de TV, como “Batman & Robin”, “Drácula 3000” e “Futurama”.

O rapper é famoso ainda por ser um ávido jogador de cartas. Coolio aprendeu a as regras do poker bastante jovem, já sendo um jogador habilidoso aos 13 anos de idade, e chegou inclusive a ser um dos participantes da primeira edição de “Celebrity Poker Showdown”, no ano de 2004. O que pode parecer apenas um detalhe revela algo bastante peculiar de sua personalidade, e da maneira como Coolio conduz sua carreira – tanto na música como fora dela. Ele crê que os músicos de rap devem ter as mesmas características que os jogadores de poker, e é por isso que ele se considera bom em ambas as profissões.

Coolio acredita que, para se ter vantagem na indústria do hip hop, os músicos de rap precisam ter a habilidade de reconhecer boas oportunidades (assim como fez quando criou “Gangsta’s Paradise” em cima da música de Steve Wonder), e que em tempos de dificuldades, eles não devem demonstrar nenhum sinal de fraqueza. Estas são as mesmas características que os bons jogadores de poker costumam ter. Coolio certamente possui esses atributos, o que faz dele um proficiente artista de rap e jogador de poker – sem mencionar sua famosa “poker face”, que usa para distrair seus oponentes na mesa e no palco.

Além de continuar a atuar como produtor musical e protagonizar algumas polêmicas, mais recentemente, Coolio tem investido na carreira como chef de cozinha com o lançamento em 2009 do livro “Cookin’ With Coolio: 5 Star Meals At A 1 Star Price” e de seu canal do YouTube com o mesmo nome. Em 2013, ele chegou até mesmo a anunciar que venderia os direitos de suas músicas para financiar a carreira culinária – o que desmentiu depois, para a alegria dos seus fãs. Atualmente, o rapper segue em turnê pelos EUA, Austrália e Europa.

Multiartista, Coolio é um habilidoso músico, produtor, ator, jogador de poker e chef de cozinha

Do underground ao mainstream

Enquanto a “época de ouro” do hip hop florescia nos anos 90, a estreia seminal de “Illmatic”, de Nas, provocou tremores na Costa Leste e o som pesado de “Ready To Die”, de Notorious B.I.G., chegou a emplacar a 15º posição. Mas apesar de ambas terem sido amplamente tocadas nas rádios dos EUA, o rap do início dos anos 90 continuava predominantemente uma subcultura. Considerado uma voz do gueto, o gênero era sinônimo de crime, violência e degradação social. Dialogava com uma juventude negra marginalizada, ainda distante das massas.

Embora o rap ainda continue representando essas vozes, hoje em dia ele é percebido de forma diferente – e não chega a surpreender mais como então. Dada a sua enorme popularidade atualmente, chegar à primeira posição das paradas pode até não parecer um grande feito, mas isso foi algo inovador e marcante na época.

Para se ter uma ideia, o mais alto que um disco de rap havia chegado na Billboard Top 100 foi com “Baby Got Back”, de Sir-Mix-Alot, que atingiu o segundo lugar em 1992. Depois de “Gangsta’s Paradise”, um rap não chegaria novamente à primeira posição até 2003, quando “In Da Club” de 50 Cent despontou. Em 1995, o hip hop estava à beira de algo novo: precisava apenas de um momento de grande exposição. O lançamento de “Gangsta’s Paradise” foi um deles.

Uma música com caráter peculiar

Escrita quase inteiramente durante uma única sessão de freestyle, “Gangsta’s Paradise” usa “Pastime Paradise”, de Stevie Wonder, como base instrumental e inspiração para o refrão. Crescendo em cima da canção original, ela ganhou suas harmonias gospel do cantor de r’n’b Larry Sanders (também conhecido como L.V.) e uma excelente produção de Doug Rasheed.

São essas características que deram a “Gangsta’s Paradise” um caráter peculiar. Ao oferecer algo novo com um toque familiar (afinal, quem não conhece ou gosta de Stevie Wonder?), ela repaginou um som marginalizado em algo que agora podia ser consumido pelas massas. Ganhou diversos Grammy, quebrou as paradas de sucesso e alcançou reconhecimento internacional.

Enquanto os versos da música apresentam uma visão do que era o universo do rap dos anos 90, a inconfundível pegada soul de Wonder se uniu às harmonias de L.V para aliviar a tensão associada ao gênero. Esse equilíbrio, ao passo em que conferiu uma certa leveza, ao mesmo tempo manteve intacta as características do rap: batida acelerada e letra com discurso forte. “Gangsta’s Paradise” mesclou o pop e o rap com uma sofisticação bastante inovadora.

A princípio, Stevie Wonder chegou a rejeitar a parceria depois de ouvir palavrões na letra. Ele não queria associar sua imagem a uma “música de gueto”. Então Coolio cedeu. Com isso, o potencial de comercialização de “Gangsta’s Paradise” aumentou, possibilitando que chegasse ainda mais longe. Soma-se a isso o fato que sua letra sobre redenção, autorreflexão e desespero fala sobre temas universais – não só vivenciados por quem vive na periferia.

Parceria com Hollywood

Gangsta’s Paradise” também fez parte da trilha sonora do filme de Hollywood “Mentes Perigosas”, que contou com a participação da famosa atriz Michelle Pfeiffer. Apesar da película ter recebido uma recepção morna por parte da crítica e do público, o videoclipe marcou a união de Pfeiffer e Coolio na tela. Em uma entrevista à revista Rolling Stone, Coolio brincou que Michelle parecia ficar nervosa ao redor de pessoas de cor. Mas o clipe promoveu com sucesso uma história diferente: um rapper negro e uma atriz branca famosa trabalhando juntos.

Um novo público de rap estava sendo atingido ali: o videoclipe possuía um visual com enorme potencial de apelo ao mercado de massa. O vídeo ganhou o prêmio de Melhor Vídeo de Rap da MTV e o Grammy de 1996 por Melhor Performance de Rap, dando ainda mais destaque comercial para a faixa. Além disso, abriu caminho para as próximas estrelas do hip hop. Embora seja um exagero afirmar que “Gangsta’s Paradise” alavancou o rap para o mainstream sozinho, ele certamente desempenhou um papel importante – e é por isso que a obra-prima de Coolio marcou história no hip hop.

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