Home Editorial Festival Batuque 2017: as crônicas de Raekwon

Festival Batuque 2017: as crônicas de Raekwon

por Thais Ribeiro

Indiscutivelmente a história do Wu-Tang Clan compõe fundamentalmente os traçados históricos do rap. A mística em torno do grupo é carregada de simbolismos e processos criativos autênticos que dão ao Wu e seus membros genealogia e legados únicos dentro do hip hop. Wu-Tang traz todos os componentes clássicos do rap, principalmente ao dos anos 90 — o stroytelling, o jus ao estilo das ruas, drogas, gangue, a ênfase à criminalidade, e ainda assim se reinventa dentro da sua icônica identidade.

Todos seus membros tiveram muita liberdade de produzirem e se associarem à gravadoras diversas, e isso consubstancia a história do grupo. Raekwon, The Chef que foi a atração principal da oitava edição do Festival Batuque, trouxe aos palcos do SESC Santo André, onde o evento ocorre anualmente, toda a mística do Wu-Tang com seu trabalho solo.

Only Built 4 Cuban Linx” é um disco emblemático, pois volta a enfatizar as histórias de criminalidade e o estilo gangster em suas letras. Raekwon traz uma atmosfera pesada e urbana em seu trabalho, o que pode ser conferido em seu show. O domínio do trabalho de um artista se dá em saber também precisamente qial a mensagem se passa. E Raekwon sabia. Por mais que sua língua fosse diferente da do público, o rapper dizia: “Isso pode ser sentido”. E foi.

O show de Raekwon trouxe uma contação de história. Narrava e o Dj escrevia em batidas. Fez menção aos membros do Wu-Tang Clan, referiu-se ao seu som preferido. Fez no palco sua crônica pessoal. Numa atmosfera urbana, uma HQ enorme com sua imagem com fundo de uma NY destruída como cenário, por vezes parecia que estava chovendo. E é esse justamente o conceito artístico de seu trabalho, quando se lançou em projeto solo em 1995, na intenção de fazer um disco como se fosse trilha sonora de um filme autobiográfico do rapper. Os fãs sabiam exatamente o que esperar e logo trataram de armar um bom e velho “bate-cabeça” em meio à pista ao som dos grandes clássicos.

O ponto a se discordar foram os momentos em que Raekwon insistentemente elogiava num discurso de gringo fetichista, as curvas das mulheres brasileiras, o que, muito aquém de um elogio, soa mais como objetificação e machismo. Totalmente dispensável.

Inclusive esse mesmo ponto faz ligação direta com a reação do público diante à apresentação mais melodiosa das atrações femininas do line do evento, como Doce Brisa, Rimas & Melodias e Flora Matos, o qual os fãs do Reakown se mostrava em grande parte indiferentes, em geral o público masculino. Se essa cisão ainda é bastante reivindicada tanto no rap, quanto em tantos outros âmbitos culturais e sociais amplamente, a curadoria do evento fez uma aposta sagaz e acertada na desconstrução desses estereótipos e fazer do seu line up uma seleção mais democrática e menos machista.

Com esta sua última edição, o Festival Batuque segue sendo um dos festivais mais importantes da música negra e da cultura hip hop, certamente já um compromisso anual para os fãs do gênero.

Raekwon no palco do SESC Santo André (Foto: Thais Ribeiro)

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