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Debate: É importante racializar a discussão e a luta do feminismo

por Erica Bastos

O Sesc Pinheiros acolhe a exposição “Todo Poder ao Povo! Emory Douglas e os Panteras Negras”, que apresenta um conjunto de obras criadas pelo artista Emory Douglas, no período em que era diretor artístico, designer e ilustrador do periódico The Black Panther, Junto com a exposição foi realizada, no último dia 26 de março, um debate sobre o livro “Mulher, Raça e Classe”, de Angela Davis.

Angela Davis é conhecida por ser ativista e membro do partido político norte-americano Pantera Negras, ela também foi membro do Partido Comunista Americano, foi perseguida e presa em 1970. Além dessa faceta ativista Davis também é uma intelectual, filósofa e professora emérita do Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Califórnia e autora de vários livros sobre o feminismo negro.

O debate foi mediado por Jaque Conceição, indicada, em 2016 pela revista feminista Think Olga, como uma das 30 mulheres mais influentes do ano, é graduada em Pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo, e Gabriela Mendes Chaves, economista formada pela Pontifícia Universidade Católica é integrante do Nepafro – Núcleo de Pesquisa e Estudos Afro-Americanos.

Durante o debate/apresentação da obra de Angela Davis as debatedoras enfatizaram o quanto é importante racializar a discussão e a luta do Feminismo, pois a realidade da mulher negra é bem diferente da realidade da mulher branca, deixar tudo num mesmo pacote é um erro, outro ponto crucial é contextualizar o debate para nossa realidade no Brasil, embora a escravidão tenha se dado nos dois países, Brasil e EUA, houve pontos diferentes em cada um, como exemplo aqui no Brasil, chegou um número bem maior de negros escravos, e a abolição da escravatura demorou muito mais.

No debate foi abordado temas cruciais na luta do feminismo negro, o legado da escravidão é uma parte importante no livro de Davis, o quanto essa atrocidade está enraizada até hoje na estrutura da sociedade, onde o negro é uma mercadoria, onde se tira sua humanização e passa a tratar o corpo negro como uma “coisa” ou “objeto”, sendo assim a violência é naturalizada, e isso dura até hoje.

Após a abolição, as mulheres negras continuaram num trabalho serviçal, de carga horária extenuantes, sem direito a dias de descanso, havia apenas uma tarde no domingo a cada duas semanas. Esse quadro que se deu logo após o fim da escravidão se perpetua até os dias atuais, onde a maioria das mulheres que estão no trabalho doméstico são negras.

No mercado de trabalho os homens brancos estão em primeiro lugar de quem ganha os maiores salários, a mulher branca vem em segundo, o homem negro em terceiro e a mulher negra em último lugar. Trazendo esse debate para o Brasil, imagina como seria a realidade de uma mulher negra diante da aprovação das alterações das leis trabalhistas e da terceirização, como ficaria para alguém que já não tem muitos direitos?

Outra questão que julgo importante é a discussão da hiperssexualização do corpo feminino, sobretudo o da mulher negra, o estupro praticado pelo homem branco era uma prática comum e considerado normal na escravidão. A mulher negra não tinha a menor possibilidade de domínio sobre seu corpo, hoje lutamos e afirmamos que o corpo é nosso e podemos explorá-lo da maneira como quisermos, é uma linha muito tênue entre como usá-lo para nos empoderar, um assunto delicado, mas que devemos discutir.

A religião também foi algo falado durante o debate, para Jaque Conceição, se muita coisa do nosso passado africano, como costumes, palavras, estão vivos, isso tudo é graças ao Candomblé, muitas pessoas ligadas hoje à religião são brancas. Seria importante que a religião de matriz africana também fosse mais valorizada pelos negros atualmente. Durante muitos anos, os seguidores dessa religião eram perseguidos pela polícia e presos, por isso o resgate das raízes é importante para a luta.

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