Home Editorial Anderson França fala sobre The Get Down: “Não venha me dizer que é apenas um Glee de pretos”

Anderson França fala sobre The Get Down: “Não venha me dizer que é apenas um Glee de pretos”

por Arthur Venturi Vasen

Considerando que muitas pessoas estão assistindo pela primeira vez, ou pela segunda vez, a série The Get Down, lançada na Netflix, o escritor carioca Anderson França faz uma análise política, histórica e social da série, valorizando-a em toda sua potencializando, e desconstruindo algumas reflexões que consideram-na apenas como um simples musical sobre rap. O texto foi publicado originalmente no Facebook de França (Veja outros texto do autor AQUI).

Confira:

The Get Down, nova série da Netflix, em parceria com a Sony Pictures.

Eu queria, humildemente, contar uma coisa pra vocês, e deixar a minha opinião sobre a série.

Depois das mortes violentas de Malcolm X, Rev. Dr. King e Kennedy, nos anos 1960 e do surgimento do The Black Panthers, a juventude de territórios populares em muitas cidades dos Estados Unidos ficaram sem a necessária presença de muitas referências nas lutas raciais. No entanto, mulheres negras ocuparam um lugar importante.

Sara Webster Fabio, professora, filósofa e ativista, se tornou a criadora do proto-rap.

O que ela fazia, unindo música e letra inspirou dezenas de artistas anos depois. Maya Angelou, com sua militância e poesia, além da imagem forte de Angela Davis, isso para falar apenas de 3 mulheres, que seguraram a marimba do desânimo na travessia dos anos 60 para os 70.

O trabalho intelectual delas e outras mulheres é, na verdade, a gênese do que iria acontecer no Bronx, a partir de 1972. Porque foram elas que conseguiram abstrair a dor para a poesia e a literatura, com muita sensibilidade.

É no parte sul do Bronx, com o abandono do Estado, que queria “revitalizar” o bairro e para isso iniciou um processo de gentrificação, para rasgarem o bairro no meio e construirem uma avenida, num planejamento de novas ocupações para a classe média emergente, fazendo com que italianos e judeus saíssem de lá, restando apenas negros e portoriquenhos, é nesse contexto que os donos de prédios começam a suspender água, eletricidade e por fim incendeiam os imóveis para receber o seguro e deixar o povo que morava lá na miséria.

A gentrificação do Bronx foi uma violência de classe e racial. Fizeram a mesmíssima coisa na Vila Autódromo. O Bronx se tornou um lugar estigmatizado por causa dos interesses de Manhattan, na Zona Sul de NY.

A Zona Norte e a Zona Sul.
Duras coincidências:

Nesse contexto de abandono, surgem os primeiros crimes. Dali, pras facções, que em poucos anos se tornaram centenas.

A violência das facções, ou maras, ou gangs, passou a ser um problema central para a prefeitura. Num bairro em ruínas, pretos e latinos disputavam entre si o poder de um território em chamas.

Havia gangs com referências ao nazismo, mesmo sendo formada por negros e latinos. A igreja neopentecostal presente, várias ONGs tentando mediar e nesse processo surge Karate Charlie, que se torna uma das maiores lideranças de gangs, apoiado inclusive pelo Black Panthers, que perdeu força entre os jovens.

Ele fundou o The Ghetto Brothers com Yellow Benji e seus irmãos. Muito sangue foi derramado entre as gangs, num território imenso onde faltava luz, água, trabalho, escola, mas havia heroína e incêndios em qualquer esquina.

As gangs tinham territórios bem delimitados e uma disciplina interna muito dura. Foi quando um peacemaker chamado Cornell Black Benji Benjamin foi morto numa emboscada de gangs, que tudo mudou.

Ghetto Brothers, que sempre foi uma gang que buscava mediação da paz, com argumentos herdados dos Black Panthers, decidiu vingar a morte de Benji, mas a mãe dele disse pro Karate Charlie:

Meu filho morreu buscando a paz.

Charlie estava com um exército de pessoas do lado de fora da casa dela, pronto para incendiar Nova York. Mas foi ela quem suspendeu a guerra.

Ghetto Brothers juntou todas as gangs, fizeram um acordo de paz. Descobriram que seu inimigo não estava ali, mas na Zona Sul.

O homem branco.

Em menos de um ano, todas as gangs pararam com a violência e criaram grupos musicais e culturais. Os chefes de gangs se tornaram DJs, porque SER DJ era algo muito fino, e ser MC era algo novo, como um profeta.

GrandMaster Flash, Afrika Baambata e DJ Kool Herc eram mitos, cara, LENDAS VIVAS. Eles não promoviam a violência, mas no meio do caos, faziam música.

Afrika fez a Zulu Nation, antes Black Spades, se tornar um grupo com mais de 2 mil filiados, com jovens que ensinavam outros jovens a fugir do crime.

O trem, a fé, o fim da violência, o fim do choro, o fim das lágrimas, o nós por nós, o sentimento de que não estamos sozinhos na periferia, e a narrativa nasce aí. No alto dos prédios, as bandeiras de Porto Rico e da Libertação Negra.

Nasce o RAP, a cultura do Hip Hop, todos buscando ter estilo, não mais andar de roupa suja, mas querendo ser referência.

Então, eu queria te dizer uma coisa:

Se você não está vendo The Get Down com esse background, não venha me dizer que é apenas um “Glee” de pretos.

Porque eu, pessoalmente, acho que você está sendo desrespeitoso com a História.

Tem representatividade. Tem preto passando mensagem. Mensagem fundamental para os dias de hoje. Tem periferia. Tem latinos, tem classe. Tem sonho. Tem rap.

Get Down é um recorte, pequeno, poético, sobre algo que, nem em um milhão de livros caberiam se fossem contados. Fala pra eles que é o rap.

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